Sob o mesmo

Nada do que foi dito significa o que as palavras carregaram, tampouco o que os ouvidos assimilaram. Foram apenas espalhafatosas conspirações de uma boca que carece de lucidez. Mas não há tempo. Palavras pesadas não devem ser proferidas à beira do penhasco. São como pedras, e essas rolam morro abaixo em avalanche.
Nem tudo é lamento. Mas sempre lamacento. Lodoso. A alma é pântano. Não! Não é mar. Há uma certa penumbra naquilo que dela faz parte. Uma oleosa umidade. Pegajosa! Grudenta. Alma sebosa. Não a minha. Todas elas. Especialmente a sua.
Não haveria este momento sem a sua permissão. Punição! Aquela que se faz oração a depender do propósito. Há sempre um propósito. Às vezes não. Mas quem se importa? Agora estou aqui a contemplar a sua face branda, onde a sisudez esconde um sorriso. Sarcástico! Convalido! Enfim, você ganhou e eu perdi.
O que diria aos outros se ainda pudesse? Sei que não irá me responder. Nunca responde. Seriam todos seus estes impulsos. Mas eu os carrego. Seguiria um pouco mais se não fosse a dor lacerante que tensiona a minha coluna. Os pródigos são mais benquistos. Mas eu nunca fui um deles. Sou apenas um ancião que aguarda o minuto seguinte para acionar o sino. Sempre pontual. Mas também sempre atrasado.
Todos os lados são iguais. Eu disse lados, não gatos. Gatos são diferentes. Mas eu não sou gato, sou um lado e, assim, igual a todos os outros. Não adianta me condenar, sou você da mesma forma que sou eu. Nada, absolutamente nada, é disforme.
Meia-noite. Ou quase. Falta aquele fio de minuto que nunca chega a ser inteiro. Daqui de cima, a praça é um poço, e as pessoas, quando existem, são vírgulas apressadas. Ninguém olha para cima. Olhar para cima dá torcicolo. E culpa.
Chamam de mostrador este rosto que dividimos. Eu prefiro dizer que ele mostra a dor. Doze vezes por dia, pelo menos. Doze vezes por noite, quando ninguém está acordado para contar. Conto sozinho. Um, dois, três... e me perco no sete, que é o número em que tudo pesa mais.
Você sobe devagar. Sempre subiu devagar, com esse passo de quem já sabe aonde vai chegar. Eu corro. Dou a volta inteira enquanto você avança um palmo. E, ainda assim, é você quem decide o dia. Eu decido apenas o instante, e o instante não vale nada. Ninguém se lembra de um minuto. Lembram a hora em que o pai morreu, a hora em que a menina nasceu. Nunca o minuto. O minuto sou eu. Esquecível. Pontual. Atrasado.
As pedras que rolaram morro abaixo eram meus pesos. Desciam presas a uma corrente, e cada vez que chegavam lá embaixo alguém subia a escada em caracol para me dar corda. Dar corda. Veja só. Dávamos corda um ao outro e chamávamos isso de conversa.
Depois o homem da chave parou de vir. Disseram que foi o joelho. Disseram que foi a prefeitura. Disseram tanto que a verdade escorreu pela fresta, junto com o óleo. É esse o pântano. Não se engane. Graxa velha, poeira de cinquenta invernos, pena de pombo. A alma de uma engrenagem é sempre suja. A sua também. A de todos.
Falta pouco. Sinto a mola ranger na espinha. Quando eu alcançar o doze, e você também, seremos um só traço. Uma única linha apontando para o céu, o único lugar onde relógio nenhum manda. Por um segundo, ninguém vai saber quem é o ponteiro grande e quem é o pequeno. Era disso que eu falava. Não adianta me condenar.
Depois vem a badalada. Uma só. A última que ainda cabe no fôlego da mola. O sino vai abrir a boca de bronze e dizer a única palavra que conhece. E lá embaixo, na praça, uma mulher vai conferir o relógio de pulso, franzir a testa e dizer que a torre está atrasada.
Ela terá razão. Eu também.
Parar não é atrasar. Parar é o único jeito de estar certo duas vezes por dia, para sempre.





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