Dois doutores e um carro de aplicativo: uma conversa sobre o trabalho que o Brasil desperdiça
- Anderson Luis da SIlva

- há 14 horas
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Esta manhã começou como tantas outras. Pedi um carro de aplicativo para ir ao trabalho, na escola onde leciono atualmente. O motorista se chamava Pedro — não é o nome real, e ele entenderá o porquê de eu preservá-lo. Puxamos conversa, como se faz, e a primeira coincidência apareceu logo: o endereço de destino, a escola onde hoje leciono, havia sido a escola onde Pedro estudou o primário e o ginásio. Rimos do acaso e seguimos conversando.
Pedro contou que tinha sido um aluno difícil. Não gostava de estudar, reprovou algumas vezes, levou cinco anos para concluir o ensino médio. Eu o ouvi com um reconhecimento que ele não esperava, porque a história era também a minha: também demorei a fechar essa etapa, também pelos mesmos motivos. Duas trajetórias escolares irregulares, atravessadas pela mesma resistência adolescente ao estudo, a concorrência com a necessidade do trabalho, as coisas mais urgentes desta etapa da vida. Mais uma coincidência, achamos.
E então veio a terceira, a que me fez escrever este texto. Pedro é mestre e doutor pela UNICAMP. Eu também sou mestre e doutor. Estávamos os dois ali, naquele carro, às sete da manhã — um dirigindo, o outro a caminho de uma sala de aula da educação básica — e ambos, cada um ao seu modo, exercendo funções que ficam aquém da formação que construímos ao longo de uma vida.
Quando ele me deixou na porta da escola, eu não estava pensando na curiosidade do encontro. Estava pensando no que ele significa.
Uma cena não é uma anedota
É tentador transformar uma história assim em anedota — o "doutor que virou motorista", contado com aquele tom de espanto indignado que rende compartilhamentos fáceis. Resisto a isso, por duas razões. A primeira é que seria injusto com Pedro, que não me pareceu, em momento algum, um homem derrotado; me pareceu alguém trabalhando, com a dignidade de quem trabalha. A segunda é que a anedota é preguiçosa: ela se contenta com o espanto e dispensa a análise. E há muito a analisar.
O que o encontro de hoje colocou diante de mim, em carne e voz, foi um dado. Um dado sobre a relação que o Brasil estabeleceu com o trabalho altamente qualificado — e, mais especificamente, com a ciência e com quem a faz. Dois doutores formados por duas das melhores universidades do país, atuando fora do ponto para o qual o país investiu em formá-los. Isso não é uma falha individual de dois homens. Quando o mesmo padrão se repete o suficiente para que dois estranhos o reconheçam um no outro em cinco minutos de conversa, deixou de ser biografia. Virou estrutura.
O nome da estrutura
Vou nomeá-la, porque me parece desonesto rodear o assunto: o que Pedro e eu encarnamos, naquele carro, é a precarização do trabalho científico e docente no Brasil. Não uso a palavra como bandeira, mas como diagnóstico.
Formar um doutor é um dos investimentos mais longos e caros que uma sociedade pode fazer numa pessoa. São, somados, cerca de duas décadas de escolaridade, anos de pesquisa, recursos públicos, bolsas, a estrutura de uma universidade inteira mobilizada. Esse investimento se justifica por uma aposta: a de que aquela pessoa devolverá ao país, em pesquisa, em ensino, em inovação, muito mais do que custou. É um contrato implícito entre a sociedade e quem ela decide formar no mais alto nível.
A precarização é a quebra desse contrato. É o que acontece quando o país forma o pesquisador e, em seguida, não constrói — ou desmonta — os lugares onde esse pesquisador devolveria o investimento. Carreiras científicas instáveis, vínculos docentes frágeis, salários que não sustentam a dedicação que exigem, concursos que não acontecem, bolsas que não acompanham a realidade. O resultado é que a formação se completa, mas o destino para o qual ela apontava não está lá. E o profissional faz o que qualquer pessoa responsável faz: encontra outro caminho para viver. Pedro encontrou o dele. Eu encontrei o meu, ao menos por ora.
Quero ser preciso aqui, para não ser mal compreendido. Não há nada de menor em dirigir um carro de aplicativo ou em lecionar na educação básica — esta última, aliás, é um trabalho da mais alta importância e que merece respeito e bons profissionais. O problema não é o trabalho que fazemos. O problema é o desperdício embutido na equação. É o país ter pago para desenvolver uma capacidade de pesquisa e depois não ter onde aplicá-la. É a conta que não fecha: investe-se na ponta da formação e abandona-se a ponta da destinação.
O que o país perde sem perceber
A precarização da ciência tem uma característica que a torna especialmente perigosa: ela é silenciosa. Quando uma fábrica fecha, há um galpão vazio que todos veem. Quando um país desperdiça seus doutores, não há ruína visível — há apenas pesquisas que não foram feitas, aulas que não foram dadas no nível que poderiam, inovações que não nasceram, problemas que continuaram sem solução. A perda é real, mas é uma perda de coisas que não chegaram a existir. E é muito difícil indignar-se com uma ausência.
Some-se a isso um segundo efeito, mais corrosivo ainda. Cada doutor que o país desperdiça é também uma mensagem enviada aos que vêm atrás. É um sinal, captado por todo jovem que pondera se vale a pena seguir o caminho longo da pesquisa, de que esse caminho pode terminar longe do ponto que prometia. A precarização não desperdiça apenas os cientistas que já formamos. Ela desencoraja os que ainda formaríamos. Ela corrói a própria disposição de uma sociedade de apostar no conhecimento — e essa, talvez, seja a perda mais grave, porque é a mais difícil de reverter.
Num momento em que o mundo inteiro reorganiza suas economias em torno de tecnologia, de inteligência artificial, de capacidade de inovação — tudo aquilo que depende, na raiz, de pessoas altamente formadas —, um país que desperdiça seus doutores não está fazendo uma escolha neutra. Está abrindo mão de competir no jogo que vai definir as próximas décadas.
O que fazer com uma conversa de trinta minutos
Não tenho a pretensão de resolver, num texto, uma questão estrutural que envolve política científica, financiamento, carreiras e prioridades nacionais. Seria desonesto fingir que tenho. Mas tenho a convicção de que mudanças estruturais começam, sempre, por se tornarem visíveis — por sair do silêncio em que operam.
Por isso escrevo sobre Pedro e sobre mim mesmo. Não para despertar pena, que ele não pediu e não merece, nem para me colocar como vítima, o que eu recuso. Escrevo porque acredito que conversas como a que tivemos esta manhã precisam deixar de ser coincidências curiosas, comentadas dentro de um carro e esquecidas no fim da corrida, e passar a ser tratadas como o que são: indicadores. Sintomas legíveis de uma escolha que o país fez e que pode, se quiser, rever.
E escrevo, também, em nome de uma ideia simples. Um doutor que dirige um aplicativo e um doutor que leciona na educação básica não são histórias de fracasso. São histórias de capacidade — capacidade construída, comprovada, disponível. Essa capacidade não se perdeu; ela está aí, em mim, em Pedro, em milhares de outros. O desperdício não é definitivo enquanto essas pessoas existem e seguem dispostas a contribuir. O que falta não é talento formado. O que falta são os lugares onde esse talento seja, enfim, aproveitado.
Desci do carro de Pedro e entrei na escola para dar minhas aulas. Os dois seguimos nosso dia, cada um no seu trabalho, que fazemos com seriedade. Mas levei comigo a conversa — e a convicção de que ela merecia ser contada para mais gente do que coube naquele banco de trás.
Talvez você, que lê, conheça um Pedro. Talvez você seja um. Ou talvez você esteja, agora mesmo, em posição de oferecer a alguém o lugar que a formação dele há tempos pede. Se for o caso, esta conversa também é para você.
Anderson Luis da Silva é Doutor em Design e Mestre em Comunicação, pesquisador e educador, com mais de duas décadas de atuação no ensino superior.




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