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Lâmpada

15 de mar. de 2022
3 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.

Lá estava ela, a brilhar no alpendre em uma noite sem luar. A lâmpada iluminava ao longe com sua luz bruxuleante, permitindo o olhar da brisa, que carregava, flutuantes, inúmeros bichinhos alados que brincavam ao vento, tal qual os peixinhos fazem nas ondas do mar.

Uma mariposa se aproxima da luz sem cautela e circunda a lâmpada que jaz dependurada defronte à janela fechada.

— Oi! — arrisca ela, ainda cegada pelo brilho incandescente que da lâmpada emanava.

— Oi! — responde, em tom caloroso, a notável brilhante.

— Sente-se aqui — diz a lâmpada, ansiosa por um papo.

A mariposa hesita.

— Deve estar quente! — questiona, prevenida.

— É de minha natureza aquecer e iluminar. E a sua natureza, qual é? — pergunta a lâmpada, curiosa.

A mariposa circundava sua nova e brilhante amiga em um energético bater de asas, enquanto respondia sem nem muito pensar:

— Minha natureza é cortejar.

— Fale-me mais sobre isso — insiste a lâmpada, interessada.

— Bom, como pode notar, sou uma mariposa. Não sou necessariamente um ser cuja beleza encante. Meu corpo é robusto e recoberto por pelos; minha pele é cinzenta; minhas antenas, um tanto quanto exóticas; e o meu voo, um pouco descontrolado.

— É uma imagem um tanto pessimista sobre si mesma — indaga a lâmpada, atenciosa.

A mariposa continua, um pouco mais entusiasmada:

— Possuo estes olhos grandes e negros, e isso, de alguma forma, me traz certas vantagens, pois consigo enxergar, mesmo no escuro, aquilo que outros olhos menos preparados não conseguem ver.

A lâmpada brilha em aprovação.

— Mas o que eles podem ver sou eu, um rascunho da natureza. Por isso, ponho-me à noite. Percorro a escuridão na busca do brilho que a mim falta. E foi isso que me trouxe até você — pontua, decidida, a mariposa, enquanto ziguezagueava pela varanda iluminada.

— Hum! Interessante — diz a lâmpada, pensativa.

— Tenho de concordar com você. Até que possui um charme manifesto naquilo que não mostra, mas, confesso, prefiro mesmo as borboletas.

A mariposa não se surpreende.

— Quem não? — diz ela, de modo jocoso. — Mas saiba você que as borboletas só gostam de flores.

A lâmpada pisca, mas logo volta a brilhar com ainda mais intensidade.

— Mas eu também sei ser flor — diz a lâmpada, resoluta.

A mariposa, velha sábia da noite, aquela que acreditava já ter visto de tudo em sua vida, surpreendeu-se com a inesperada afirmação.

— E como faz isso? — pergunta a mariposa, curiosa.

— Volte pela manhã e você verá — diz a lâmpada, envaidecida.

No dia seguinte, a mariposa retorna à varanda onde havia encontrado a lâmpada acesa na noite anterior. A luz do sol ofuscava a sua visão; assim, teve de se aproximar para poder contemplar a transformação da lâmpada em flor.

Em um voo rápido pela sombra do telhado, a mariposa avistou ao longe a lâmpada apagada. Surpreendida, observou que ela, de fato, era também flor. Lá estava ela, rosqueada no centro de uma arandela em formato de pétalas de girassol.

A mariposa manteve a distância e não se aproximou, pois, pousada junto à lâmpada, estava uma grande e exuberante borboleta. A borboleta movimentava lentamente as suas asas, enquanto roçava as suas patas pela superfície fria da lâmpada apagada.

Já a mariposa, em um rodopio desajeitado, retornou voando para a mata de onde havia saído. Pensava baixinho: “Lâmpada danada, virou mesmo flor. Será que ela sabe que as borboletas vivem somente algumas poucas semanas? O que isso importa?”, indaga a si mesma, impaciente.

O importante é que brilhe todas as noites, para que, assim, eu possa, de longe, deslumbrar-me com sua luz; e que, no dia já amanhecido, sendo ela flor, permita que por ela borboletas se encantem, mesmo que, para isso, tenha de permanecer apagada.


Recreio dos Bandeirantes – RJ, março de 2022

 
 
 

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ALESSANDRA MAZZIERI DE LIMA
ALESSANDRA MAZZIERI DE LIMA
10 de mai. de 2022

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