Assédio!
Atualizado: 27 de ago.

Lá estava ele naquela manhã de segunda-feira. Mais uma semana se iniciaria. Havia alcançado o cargo de chefia por meios pouco ortodoxos, mas isso não importava; afinal, mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo. Era um mantra que gostava de repetir aos seus comandados.
Não se perdia em escrúpulos. Afinal, do alto do poder por ora ocupado, sentia-se um semideus. Estava onde merecia estar.
Pegou com firmeza o fone do telefone que descansava sobre a base. Apertou o botão que automaticamente o ligava à sua secretária.
— Flávia, encontre o Wladimir, mande-o subir à minha sala imediatamente e traga-me um café — disse ele, em tom austero.
Devolveu o fone à base e recostou-se em sua cadeira. Ansiava pela demonstração de poder que teria em breve. Deixou escapar um sorriso, o que fez com que sua feição se abrandasse um pouco.
Voltou-se para a tela de seu computador, onde passou os olhos pelas notícias do dia. Abriu a caixa de e-mails, na qual algumas mensagens se enfileiravam, esperando por sua resposta.
“Que esperem”, pensou ele.
Olhou para o relógio reluzente em seu punho esquerdo. Inquietou-se. Voltou ao telefone.
— Flávia, onde está a porra do Wladimir? Diga a esse imprestável que suba agora.
— Sim, senhor — respondeu ela, com a voz trêmula e reticente.
Ele voltou a se reclinar em sua cadeira, colocando agora os pés cruzados sobre o tampo da mesa. Cruzou as mãos sobre o abdômen e esfregou os polegares, em explícita ansiedade.
Poucos minutos depois, o telefone tocou. Flávia informou que Wladimir já havia chegado. Antes mesmo que ela terminasse a frase, ele sentenciou:
— Fale para ele esperar. Estou ocupado agora.
Ele adorava o poder. Sentia-se extasiado pela força que possuía. Seu cargo fora fruto de seu mérito, e isso fazia dele um exemplo a ser seguido por aqueles que lhe deviam admiração e respeito.
Sentou-se novamente em sua cadeira, virando-se mais uma vez para o monitor do computador. Leu pacientemente o horóscopo antes de verificar o resumo semanal da novela. Abriu o jogo de cartas e conferiu sua última pontuação. Haveria de se superar; afinal, ele era o campeão. O tempo passou sem que ele se desse conta da movimentação dos ponteiros do relógio. Flávia voltou a chamá-lo pelo telefone. Ele resolveu não atender.
“Garota irritante. Quem ela achava que era para interrompê-lo sem autorização?”
Desdenhou da luz piscante que indicava as repetitivas tentativas de contato telefônico e continuou em sua partida de cartas, rumo ao novo recorde.
Minutos depois, alguém bateu à porta. Ele se levantou em um único movimento e, de modo brusco e contundente, abriu-a. Antes mesmo que sua interlocutora pudesse se manifestar, disparou:
— Porra, já não falei para esperar? Acha que minha vida é uma sucessão de inutilidades como a de vocês? Esperem! Quando eu puder atender, avisarei.
Bateu a porta, deu-lhe as costas e voltou à sua cadeira.
Deixou escapar um profundo suspiro antes de bater com as mãos sobre o tampo da mesa.
— Inúteis! — postulou, por fim.
Alguns minutos se passaram enquanto ele se perdia em pensamentos. Pegou o telefone novamente. Do outro lado da linha, Flávia atendeu. Ele disparou:
— Onde está o meu café? Já faz tempo que o solicitei. É pedir muito para ter eficiência?
Flávia, que ouvia do outro lado, respondeu calmamente:
— Tentei entrar em contato com o senhor pelo ramal. Até bati à sua porta a fim de lhe entregar o café.
Ele retrucou:
— Traga-o agora e mande esse imprestável do Wladimir entrar.
Segundos mais tarde, Flávia bateu à porta novamente e adentrou a sala com a bandeja, em cujo centro havia uma única xícara de café. Ela ergueu cuidadosamente a xícara, segurando o pires, e colocou-a sobre o tampo da mesa. Virou-se, em seguida, para sair, quando foi novamente interpelada:
— Onde está o imbecil do Wladimir?
A jovem virou-se novamente e informou, com a voz calma e sem pausas:
— Wladimir pediu que eu informasse que está cagando para o senhor.
— Diga a ele que venha à minha sala assim que sair do banheiro — disse ele, de modo intempestivo.
— Não foi bem isso que ele quis dizer, senhor — respondeu ela enquanto saía da sala, fechando a porta atrás de si.
Ele levou a xícara de café aos lábios e sorveu um generoso gole.
— Flávia! — gritou ele de onde estava. — O café está frio!
Do lado de fora da sala, ela riu. Não tardaria para que as generosas gotas de laxante, postas havia pouco na bebida, cumprissem o seu papel.
Flávia levantou-se calmamente, pegando a bolsa que, momentos antes, jazia dependurada na cadeira. Wladimir a aguardava do lado de fora do prédio. Em sua mochila, estavam todos os rolos de papel higiênico anteriormente disponíveis no andar.





Comentários