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Assédio!

9 de dez. de 2021
3 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.



Lá estava ele naquela manhã de segunda-feira. Mais uma semana se iniciaria. Havia alcançado o cargo de chefia por meios pouco ortodoxos, mas isso não importava; afinal, mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo. Era um mantra que gostava de repetir aos seus comandados.

Não se perdia em escrúpulos. Afinal, do alto do poder por ora ocupado, sentia-se um semideus. Estava onde merecia estar.

Pegou com firmeza o fone do telefone que descansava sobre a base. Apertou o botão que automaticamente o ligava à sua secretária.

— Flávia, encontre o Wladimir, mande-o subir à minha sala imediatamente e traga-me um café — disse ele, em tom austero.

Devolveu o fone à base e recostou-se em sua cadeira. Ansiava pela demonstração de poder que teria em breve. Deixou escapar um sorriso, o que fez com que sua feição se abrandasse um pouco.

Voltou-se para a tela de seu computador, onde passou os olhos pelas notícias do dia. Abriu a caixa de e-mails, na qual algumas mensagens se enfileiravam, esperando por sua resposta.

“Que esperem”, pensou ele.

Olhou para o relógio reluzente em seu punho esquerdo. Inquietou-se. Voltou ao telefone.

— Flávia, onde está a porra do Wladimir? Diga a esse imprestável que suba agora.

— Sim, senhor — respondeu ela, com a voz trêmula e reticente.

Ele voltou a se reclinar em sua cadeira, colocando agora os pés cruzados sobre o tampo da mesa. Cruzou as mãos sobre o abdômen e esfregou os polegares, em explícita ansiedade.

Poucos minutos depois, o telefone tocou. Flávia informou que Wladimir já havia chegado. Antes mesmo que ela terminasse a frase, ele sentenciou:

— Fale para ele esperar. Estou ocupado agora.

Ele adorava o poder. Sentia-se extasiado pela força que possuía. Seu cargo fora fruto de seu mérito, e isso fazia dele um exemplo a ser seguido por aqueles que lhe deviam admiração e respeito.

Sentou-se novamente em sua cadeira, virando-se mais uma vez para o monitor do computador. Leu pacientemente o horóscopo antes de verificar o resumo semanal da novela. Abriu o jogo de cartas e conferiu sua última pontuação. Haveria de se superar; afinal, ele era o campeão. O tempo passou sem que ele se desse conta da movimentação dos ponteiros do relógio. Flávia voltou a chamá-lo pelo telefone. Ele resolveu não atender.

“Garota irritante. Quem ela achava que era para interrompê-lo sem autorização?”

Desdenhou da luz piscante que indicava as repetitivas tentativas de contato telefônico e continuou em sua partida de cartas, rumo ao novo recorde.

Minutos depois, alguém bateu à porta. Ele se levantou em um único movimento e, de modo brusco e contundente, abriu-a. Antes mesmo que sua interlocutora pudesse se manifestar, disparou:

— Porra, já não falei para esperar? Acha que minha vida é uma sucessão de inutilidades como a de vocês? Esperem! Quando eu puder atender, avisarei.

Bateu a porta, deu-lhe as costas e voltou à sua cadeira.

Deixou escapar um profundo suspiro antes de bater com as mãos sobre o tampo da mesa.

— Inúteis! — postulou, por fim.

Alguns minutos se passaram enquanto ele se perdia em pensamentos. Pegou o telefone novamente. Do outro lado da linha, Flávia atendeu. Ele disparou:

— Onde está o meu café? Já faz tempo que o solicitei. É pedir muito para ter eficiência?

Flávia, que ouvia do outro lado, respondeu calmamente:

— Tentei entrar em contato com o senhor pelo ramal. Até bati à sua porta a fim de lhe entregar o café.

Ele retrucou:

— Traga-o agora e mande esse imprestável do Wladimir entrar.

Segundos mais tarde, Flávia bateu à porta novamente e adentrou a sala com a bandeja, em cujo centro havia uma única xícara de café. Ela ergueu cuidadosamente a xícara, segurando o pires, e colocou-a sobre o tampo da mesa. Virou-se, em seguida, para sair, quando foi novamente interpelada:

— Onde está o imbecil do Wladimir?

A jovem virou-se novamente e informou, com a voz calma e sem pausas:

— Wladimir pediu que eu informasse que está cagando para o senhor.

— Diga a ele que venha à minha sala assim que sair do banheiro — disse ele, de modo intempestivo.

— Não foi bem isso que ele quis dizer, senhor — respondeu ela enquanto saía da sala, fechando a porta atrás de si.

Ele levou a xícara de café aos lábios e sorveu um generoso gole.

— Flávia! — gritou ele de onde estava. — O café está frio!

Do lado de fora da sala, ela riu. Não tardaria para que as generosas gotas de laxante, postas havia pouco na bebida, cumprissem o seu papel.

Flávia levantou-se calmamente, pegando a bolsa que, momentos antes, jazia dependurada na cadeira. Wladimir a aguardava do lado de fora do prédio. Em sua mochila, estavam todos os rolos de papel higiênico anteriormente disponíveis no andar.

 
 
 

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