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  • Anderson Luis da SIlva

Preto!

Luiz Cláudio Serafim foi o nome a ele atribuído com carinho por seus pais, Eneide e Jurandir, antes mesmo dele nascer. Tal acunha fora suplantada assim que ele viu o mundo pela primeira vez, ainda alheio as mazelas e as falas, era referenciado entre as enfermeiras por pretinho lindo.

O tempo passou rápido e o pretinho lindo cresceu alheio ao nome a ele atribuído. Em casa era Luizinho, mas na escola foi referenciado por variados apelidos: Preto, Tição, Buiu, Berinjela, Tiziu, Moreninho, Graxa, Bombril, Macaco, Feijoada, Escurinho, Carvão, Bola Sete, dentre tantos outros que saiam como ofensas deliberadas ou por vezes como equivocados elogios.

Na rua onde morava o chamavam de Sola. Na igreja era Brilho, uma referência aos dentes brancos que sobressaiam em seu rosto em constante sorriso.

Luiz Cláudio Serafim havia por fim esquecido, ou nunca ter tido de fato, se apropriado do nome. Sempre fora um jocoso apelido, um equivocado adjetivo, um substantivo enviesado.

Tal condição fora reforçada por termos e referencias que extrapolavam o seu próprio ser. Na infância deparou-se pela primeira vez com um lápis cor de pele, cujo tom rosado distanciava-se da sua própria. Quando se olhava no espelho deparava-se com o cabelo ruim, não entendia o que fazia dos outros cabelos serem bons.

Uma colega de sala era tida como uma negra de traços finos. Seriam os dele grosseiros?

Termos como, denegrir a imagem alheia, não sou tuas negas, serviço de preto, barriga suja, dia de branco, criado-mudo, nego é foda, trabalho de preto, dentre outros tantos que escapavam das bocas viciadas daqueles que o viam como menor, faziam com que ele se sentisse de fato um algo a margem, marginalizado.

Quanto mais crescia, adquiria consciência da segregação propagada até mesmo por aqueles que se diziam amigos. É uma bonita estampa étnica! Dizia a professora em relação as roupas que sua mãe com apresso costurava para ele. A frase aparentemente inocente trazia implícita a ideia de que tudo aquilo que não fosse eurocêntrico deveria de ser taxado por exótico. Tal qual suas vestes ele próprio se tornara um ser explorado nos correntes espetáculos grotescos do espectro social, tal qual Sarah Baartman que no século XIX era exposta como atração circense.

A um colega, de pele mais clara que a dele, diziam que ainda assim possuía um pé na cozinha. A um outro elogiavam por ele ser pau toda obra. Outro ainda chamavam de meia tigela. Tais expressões, descobriu ele, possuíam origem na condição de seus antepassados escravizados. Eram formas de rememorar àqueles não brancos que deveriam manterem-se em seus devidos lugares.

Havia na sala de aula uma garota que diziam ser “mulata”, termo originado na língua espanhola que remete ao filhote nascido do cruzamento de uma égua com um jumento. Quando complementavam o questionável jubilo com “ela é tipo exportação” deixavam claro o caráter mercantil atribuído ao corpo alheio. Alguns diziam ser ela “da cor-do-pecado”. Haveria ela então de buscar a redenção em oração?

Não raro ouvia a postulação de que a sua mãe era uma reles doméstica. Ela era costureira, mas os trabalhos manuais eram postos todos sob o julgo de serem domésticos. O termo surgiu da ideia de que seria necessária a domesticação daqueles que eram tidos por selvagens.

Nas festas via alguns brancos fantasiados com a “cara preta”, outros vinham de “nega maluca”, havia até aqueles que performavam o “samba do crioulo doido” de posse de instrumentos de percussão improvisados. Ele, no entanto, deveria se fantasiar daquilo que nunca seria aos olhos daqueles que desde cedo o julgavam.

Se ele errava, diziam que havia “feito nas coxas”. Se acertava, havia de certo copiado de alguém. Diziam que quando preto não suja na entrada, suja na saída. Que preto andando é suspeito, correndo era ladrão. Se os tempos eram difíceis, a coisa estava preta. Se não era original vinha do mercado negro. Se a magia era boa, era branca, se não, negra. Da mesma forma se não se comportasse entraria para a lista negra. Que não deveria ser a ovelha negra da família. Que a inveja boa, seria branca. No lado negro da força estão os maus.

Diziam que ele era de origem africana. Seria seus ancestrais apátridas? A África era um continente formado por 53 países, mais de cem etnias com o número de línguas e dialetos superior a dois mil. Ser africano era o mesmo que não ser.

Complementavam aqueles aos quais questionava. Ninguém é branco no Brasil. Foram os negros que escravizaram o seu próprio povo. Na África só tem pobreza. Dia da consciência humana. É muito mimimi.

O apagamento da cultura de seus antepassados foi uma das tantas violências desferidas contras suas origens. A fé de seu povo sofreu um processo de branqueamento, assim Iemanjá tornou-se branca como leite, cujo cabelos escorriam pelo corpo delineado em vestido azul. Diferente da grande mãe de pele escura e corpo voluptuoso cujo fartos seios amamentou os demais orixás de sua terra natal.

Os Orixás, Deuses criadores e mantenedores das narrativas de seus ancestrais foram subjugados ao submundo, substituídos por um Deus único, onipresente e onisciente, que regia todas as coisas sentado em seu trono de ouro trajando uma longa túnica branca.

Luiz Cláudio Serafim, cujo nome não era proferido, seguia sem saber quem era de fato. Diziam que Deus não criou raças, mas criado seres humanos. Bradavam ainda que ele tinha concebido o homem a sua imagem e semelhança, mas quando Luiz olhava para a figura do criador pintada no teto da capela Sistina por Michelangelo, não se reconhecia. Quando contemplava o Cristo na cruz sobre o altar da igreja, também não encontrava relação com o seu próprio rosto. Quando olhava para as coisas do mundo tampouco conseguia se reconhecer.

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