Preto!
Atualizado: 27 de ago.
Luiz Cláudio Serafim foi o nome que lhe atribuíram com carinho seus pais, Eneide e Jurandir, antes mesmo de ele nascer. Tal nome fora suplantado assim que viu o mundo pela primeira vez. Ainda alheio às mazelas e às falas, era chamado pelas enfermeiras de “pretinho lindo”.
O tempo passou rapidamente, e o pretinho lindo cresceu alheio ao nome que lhe fora atribuído. Em casa, era Luizinho, mas, na escola, foi chamado por variados apelidos: Preto, Tição, Buiu, Berinjela, Tiziu, Moreninho, Graxa, Bombril, Macaco, Feijoada, Escurinho, Carvão, Bola Sete, entre tantos outros que saíam como ofensas deliberadas ou, por vezes, como elogios equivocados.
Na rua onde morava, chamavam-no de Sola. Na igreja, era Brilho, uma referência aos dentes brancos que sobressaíam em seu rosto constantemente sorridente.
Luiz Cláudio Serafim havia, por fim, esquecido o nome ou talvez nunca tivesse, de fato, se apropriado dele. Sempre fora um apelido jocoso, um adjetivo equivocado, um substantivo enviesado.
Tal condição fora reforçada por termos e referências que extrapolavam o seu próprio ser. Na infância, deparou-se pela primeira vez com um lápis cor de pele, cujo tom rosado se distanciava do seu. Quando se olhava no espelho, deparava-se com o cabelo ruim. Não entendia o que fazia com que os outros cabelos fossem bons.
Uma colega de sala era tida como uma negra de traços finos. Seriam os dele grosseiros?
Termos como “denegrir a imagem alheia”, “não sou tuas negas”, “serviço de preto”, “barriga suja”, “dia de branco”, “criado-mudo”, “nego é foda” e “trabalho de preto”, entre tantos outros que escapavam das bocas viciadas daqueles que o viam como inferior, faziam com que ele se sentisse, de fato, algo à margem, marginalizado.
Quanto mais crescia, mais adquiria consciência da segregação propagada até mesmo por aqueles que se diziam amigos.
— É uma bonita estampa étnica! — dizia a professora em relação às roupas que sua mãe costurava para ele com apreço.
A frase aparentemente inocente trazia implícita a ideia de que tudo aquilo que não fosse eurocêntrico deveria ser taxado de exótico. Tal qual suas vestes, ele próprio se tornara um ser explorado nos recorrentes espetáculos grotescos do espectro social, como Sarah Baartman, que, no século XIX, era exposta como atração circense.
A um colega de pele mais clara que a dele, diziam que, ainda assim, possuía um pé na cozinha. A outro, elogiavam por ser pau para toda obra. Outro, ainda, chamavam de meia tigela. Tais expressões, descobriu ele, possuíam origem na condição de seus antepassados escravizados. Eram formas de rememorar àqueles não brancos que deveriam se manter em seus devidos lugares.
Havia na sala de aula uma garota que diziam ser “mulata”, termo originado na língua espanhola que remete ao filhote nascido do cruzamento de uma égua com um jumento. Quando complementavam o questionável júbilo com “ela é tipo exportação”, deixavam claro o caráter mercantil atribuído ao corpo alheio. Alguns diziam ser ela “da cor do pecado”. Haveria ela, então, de buscar a redenção em oração?
Não raro, ouvia a afirmação de que sua mãe era uma reles doméstica. Ela era costureira, mas os trabalhos manuais eram todos postos sob o jugo de serem domésticos. O termo surgira da ideia de que seria necessária a domesticação daqueles que eram tidos como selvagens.
Nas festas, via alguns brancos fantasiados com a “cara preta”; outros vinham de “nega maluca”; havia até aqueles que performavam o “samba do crioulo doido”, de posse de instrumentos de percussão improvisados. Ele, no entanto, deveria se fantasiar daquilo que nunca seria aos olhos daqueles que, desde cedo, o julgavam.
Se errava, diziam que havia “feito nas coxas”. Se acertava, havia decerto copiado de alguém. Diziam que, quando preto não suja na entrada, suja na saída. Que preto andando era suspeito; correndo, era ladrão. Se os tempos eram difíceis, a coisa estava preta. Se não era original, vinha do mercado negro. Se a magia era boa, era branca; se não, negra. Da mesma forma, se não se comportasse, entraria para a lista negra. Que não deveria ser a ovelha negra da família. Que a inveja boa seria branca. No lado negro da força estavam os maus.
Diziam que ele era de origem africana. Seriam seus ancestrais apátridas? A África era um continente formado por 53 países, mais de cem etnias e um número de línguas e dialetos superior a dois mil. Ser africano era o mesmo que não ser.
Aqueles a quem questionava complementavam:
— Ninguém é branco no Brasil.
— Foram os negros que escravizaram o próprio povo.
— Na África, só há pobreza.
— Dia da consciência humana.
— É muito mimimi.
O apagamento da cultura de seus antepassados foi uma das tantas violências desferidas contra suas origens. A fé de seu povo sofreu um processo de branqueamento. Assim, Iemanjá tornou-se branca como leite, com cabelos que escorriam pelo corpo delineado em um vestido azul. Diferente da grande mãe de pele escura e corpo voluptuoso, cujos fartos seios haviam amamentado os demais orixás de sua terra natal.
Os orixás, deuses criadores e mantenedores das narrativas de seus ancestrais, foram subjugados ao submundo, substituídos por um Deus único, onipresente e onisciente, que regia todas as coisas sentado em seu trono de ouro, trajando uma longa túnica branca.
Luiz Cláudio Serafim, cujo nome não era proferido, seguia sem saber quem era de fato. Diziam que Deus não criara raças, mas seres humanos. Bradavam ainda que Ele havia concebido o homem à sua imagem e semelhança, mas, quando Luiz olhava para a figura do Criador pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina, não se reconhecia. Quando contemplava o Cristo na cruz sobre o altar da igreja, também não encontrava relação com o próprio rosto. Quando olhava para as coisas do mundo, tampouco conseguia se reconhecer.





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