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Platônico!

23 de nov. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.



Não há amor maior que o platônico. Sim, esta é uma afirmação deveras controversa, mas quem aqui fala é um platonista profissional. Confesso que grande parte de meus amores foi platônica, ou seja, só existiu em minha mente. Mas isso não é de todo ruim, pois, sendo platônicos, sempre foram perfeitos e imaculados.

Há uma permanência no platonismo: o amor não se esgota. Dessa forma, os anos seguiram, e novos amores, também platônicos, ocuparam o seu lugar. Mas isso não implicou o desamor por aqueles que um dia se fizeram protagonistas de meus pensamentos. Ao contrário, todos sobrevivem hoje em minhas mais puras fantasias.

Vale salientar que existe o amor platônico, mas também a paixão platônica e mesmo a casualidade platônica. Enquanto o primeiro acaba por nortear inconscientemente as nossas escolhas ao longo da vida, os outros dois são chamas temporárias de uma mente entorpecida.

A paixão fulmina, seja platônica ou não. Faz arder o coração e a imaginação. Nela construímos as mais incríveis fábulas amorosas. Diferentemente da paixão de fato, a platônica pode durar para sempre, pois é continuamente avivada pelo sopro idealizado do platonista. Por vezes, converte-se em amor e, como ele, em tenra lembrança.

Já o platonismo casual dura o tempo do gozo. Efêmero como algumas relações que, em vida, se estabelecem e findam. Não é necessariamente ruim, mas, por ser facilmente esquecível, não deixa marcas.

Sou o sujeito oculto desta confissão, mas quero dar uma face a um de meus amores platônicos, para que vocês, que agora leem o meu relato, possam concebê-lo em plenitude. Um dos primeiros de que me lembro chegou-me na adolescência. História curiosa e cheia do mais verdadeiro amor. Quando começou, era paixão, confesso.

Ainda menino, costumava pegar um ônibus para ir e voltar do trabalho, por conveniência, sempre no mesmo horário, assim como tantos outros que compartilhavam comigo o saudoso coletivo. E foi nesse período que a vi pela primeira vez. Uma garota de pele alva, cujos cabelos lisos escorriam-lhe pelas costas; um sorriso largo, emoldurado por um inigualável batom vermelho; um olhar de tom profundo, que sorria em enlace sem escapatória.

Nossos olhos se encontravam, fosse pelo reflexo da vidraça, fosse em descuidadas observações diretas. Vi-me apaixonado, preso ao seu perfume, que ainda hoje a traz até mim. Parti para a ofensiva. Mas não pensem que optei pela maneira tradicionalmente utilizada nesses casos. Talvez um “oi, tudo bem?” servisse melhor à causa, mas, carregado da complexidade com que fui constituído, segui por um caminho longo, duradouro e sem final. Contarei agora, em síntese, como isso se deu.

Não sabia nada sobre a linda garota que fizera com que eu me apaixonasse e não tinha a coragem mínima necessária para uma abordagem direta. Desse modo, pus-me em uma elucubrada investigação. Lembremos que, naquela época, não dispúnhamos de redes sociais digitais. Assim, todo o processo teria de se dar à moda antiga, analogicamente.

Minha súbita paixão não era necessariamente um segredo, a não ser para ela, a moça do ônibus. Eu precisava de aliados nesse processo e, assim, partilhava os meus mais tenros sentimentos com uma infinidade de amigos e amigas. Uma delas me auxiliou na invasão, situação que descreverei um pouco mais adiante.

Apesar de ela, a dona dos meus sentimentos, já estar no ônibus quando eu entrava e descer depois de meu ponto habitual, fiz uso de uma estratégia simples a fim de descobrir precisamente os destinos inicial e final da doce amada. Assim, pela manhã, todos os dias, recuava uma parada de ônibus, na tentativa de identificar o local exato onde ela embarcava. Tal estratégia acabou por me levar até o ponto inicial da linha. Descobrir onde descia foi mais fácil: bastou permanecer no ônibus além de minha parada e, assim, observar o seu desembarque e a direção que tomava.

Esse exercício me trouxe uma informação valiosa: descobri onde ela estudava. Voltemos agora à minha cúmplice, citada prematuramente acima. Essa minha amiga também estudava no mesmo colégio e, assim, compartilhou comigo, após cansativa insistência, o fluxo operacional da entrada dos alunos na escola. Uma descrição detalhada feita por mim permitiu que ela identificasse rapidamente o alvo de minha paixão desvairada. Sim, ela estudava lá. Agora, eu precisaria colocar em prática a próxima fase de meu pouco elaborado plano.

O acesso à escola, na ocasião, dava-se mediante a apresentação e a retenção da carteirinha estudantil. Dessa forma, eu não conseguiria passar pelo portão sem ser notado. Mas minha infância na rua e minha passagem pelo grupo escoteiro haviam me preparado para aquele momento: a escalada do muro da escola. Já dentro do território de combate, esgueirei-me por entre as árvores rumo ao pátio. Meu objetivo: a sala das carteirinhas escolares, onde conseguiria, enfim, ter acesso aos preciosos dados ali contidos. Ou seja: o seu nome, a sua idade, o seu endereço e o seu valioso número de telefone.

A cabeça do platonista funciona como um filme B. As coisas não se encaixam direito ao longo da trama, muitas vezes menos ainda em seu final. Mas eu não me dava conta disso naquele momento. Apenas precisava completar aquela fase do plano; depois, pensaria no que fazer com aquilo.

Minha cúmplice ficou encarregada de retirar a inspetora de alunos da sala, permitindo que eu entrasse sem ser notado. E assim foi feito. Logo que notei o seu distanciamento, subi as escadas, entrei na pequena sala, busquei na estante de madeira o nicho onde ficavam as carteirinhas escolares da turma dela e vasculhei-as uma a uma, em busca de seu rosto impresso no retrato. Por fim, encontrei-a. Anotei rapidamente as informações que buscava, guardei tudo em seu devido lugar e retirei-me dali, voltando a pular o muro em direção à liberdade da rua.

Lembro-me, como se fosse hoje, desse momento de extrema alegria. Ela agora tinha um nome, o qual eu nunca mais esqueceria. Confesso que, ainda hoje, sei de cor todos os dados ali coletados. Todos!

Descobri mais tarde que a palavra cor, em latim, refere-se ao coração. Ou seja, saber de cor é saber de coração. Muito apropriado.

No fim de semana seguinte, liguei pela primeira vez. Ela atendeu ao telefone. Eu não disse nada; apenas me deliciei com o seu “alô, alô” impaciente do outro lado da linha.

Essas ligações se sucederam, sempre em franco silêncio. Um dia, conversei, sem me identificar. Marcamos de nos ver, mas sem que eu aparecesse, pelo menos para ela, pois sempre estive lá. Confesso que, lendo isso agora, soa-me um pouco assustador, mas nunca fui uma ameaça; fazia-me presente como proteção.

Descobri, com o tempo, a balada que ela frequentava e, naturalmente, passei também a frequentá-la. Nunca, no entanto, falamos um com o outro. Por vezes, sofria ao vê-la beijar outras bocas, segurar outras mãos, recostar-se em outros corpos. Mas, ao mesmo tempo, ficava extasiado ao vê-la dançando, quase em transe, ao som da versão de Aretha Franklin para a música “I Say a Little Prayer”. O acaso se manifesta aos olhos atentos: quantas pequenas orações eu mesmo fiz por aquela bela moça.

Durante um bom tempo, perdi-me pelos caminhos do mundo atrás de sua trilha. Quando, por exemplo, descobri onde ela trabalhava, deslocava-me alguns quilômetros todos os dias para ir àquela agência bancária, onde, da fila, buscava ao longe o seu sorriso inigualável. Quando o encontrava, tudo havia valido a pena.

O nosso não relacionamento durou muito tempo. Decerto, ainda vive dentro de mim como histórias não vividas, mas por mim experienciadas.

E assim o tempo correu. Crescemos, distanciamos os nossos caminhos e efetivamos, por fim, o nosso desencontro. Mesmo que a vida de cada um de nós tenha posto em prática os seus mais nobres planos, aquele amor ficou. Platônico, mas, para sempre, real.

Revogo minha afirmação inicial: há amores maiores que os platônicos, mas isso não os torna menos inesquecíveis.

 
 
 

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