Flerte!
Atualizado: 27 de ago.

Naquela noite, ele saiu só. Precisava relaxar, beber algo e pôr-se a ler o mundo tal qual se apresentava naquela noite quente de sexta-feira. Necessitava simplesmente estar, mas toda vida vivida tende a reservar surpresas.
Ali, de onde estava sentado, observava os acontecimentos que fervilhavam ao seu redor. Atentava para o ir e vir de garotas e garotos, de senhores e senhoras, de mãos entrelaçadas e sorrisos escapados. O universo daquele microcosmo fervilhava em enlaces feitos e desfeitos, com o brilho momentâneo que encanta como a luz de uma estrela cadente ao adentrar a atmosfera.
O flerte era a constante, tanto entre os pares já formados quanto entre aqueles em formação. Havia ainda alguns aparentemente despropositados, tal qual ele próprio, mas sempre há um propósito, ainda que este não seja conscientemente arquitetado.
Assim, subitamente, seus olhos cruzaram com os dela. À média distância, eles se entreolhavam. Ele sustentava a visão turva enquanto ajustava a postura e libertava no espaço um meio sorriso, ao mesmo tempo que, elegantemente, levava novamente aos lábios o seu copo de whisky.
Ele há muito já passara da meia-idade, e tal situação — uma paquera inesperada — levou-o diretamente à juventude. Sentir-se novo era como um sopro adicional de vida de que ele precisava e não sabia.
Ele inseriu o dedo indicador direito dentro do copo, mexendo as pedras de gelo, enquanto erguia, desajeitado, uma única sobrancelha. Lembrava-se de ter visto aquilo em um filme qualquer. A moça, cujos cabelos loiros refletiam as luzes alaranjadas daquele bar, continuava a observá-lo sem discrição.
Apesar do escancarado interesse demonstrado por ela, ele não conseguia identificar, no semblante da moça, a sua verdadeira face ou intenção. Tudo estava um pouco desfocado, mas ele estava gostando daquele jogo de sedução. Desse modo, haveria de permanecer entre olhares por mais alguns instantes, antes de se levantar e se apresentar formalmente à bela e misteriosa dama.
Sua face já rosava, um pouco pela bebida, um pouco pela situação. Sorrisos já escapavam com mais facilidade, seguindo no ar rumo ao seu inesperado alvo: a moça loira do bar.
Seria ela bonita? De onde estava, não conseguia identificar seus traços; apenas lia os contornos de suas formas e suas cores parcialmente borradas, mas ainda assim discerníveis.
Mas isso não mais importava. Afinal, a beleza estava no momento que já se eternizava em seu íntimo, e isso, sim, era uma marca a ser festejada.
Ele aspirou profundamente o ar, enchendo o peito de coragem e determinação. Levantou-se de sua cadeira quando, quase instantaneamente, a moça acenou em sua direção.
Ele sorriu e balançou a cabeça de um lado para o outro, em total excitação. Satisfeito, caminhou lentamente, ensaiou um gingado e seguiu cambaleante, com o copo de whisky em riste. A poucos passos da mesa de destino, outro corpo passou apressado por ele.
Era uma jovem de cabelos negros e sorriso emoldurado por um reluzente batom vermelho. A moça loira levantou-se e abriu os braços, envolvendo a morena em um abraço terno, porém apertado. A loira olhou nos olhos da morena e disse, com as pupilas brilhantes e dilatadas:
— Estava ansiosa à sua espera.
Em seguida, elas se perderam em um beijo acalorado, emoldurado pelo batente da porta de entrada.
Ele se deteve por um instante, tentando entender o que ocorria, sem esconder a fria e dilacerante frustração. Seguiu com seus passos já incertos, passou ao lado do casal recém-formado e avançou, incrédulo, rumo ao sanitário.
Lá, parado defronte ao espelho, questionou-se:
— Maldita miopia! Nunca mais saia sem os seus óculos. Nunca!





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