Flerte!



Naquela noite ele saiu só. Precisava relaxar, beber algo e deixar-se a ler o mundo tal qual se colocava naquela noite quente de sexta-feira. Necessitava simplesmente estar, mas toda vida vivida tende a reservar surpresas.

Ali sentado de onde estava observava os acontecimentos que fervilhavam ao seu redor. Atentava-se ao ir e vir de garotas e garotos, de senhores e senhoras, de mãos entrelaçadas a sorrisos escapados. O universo daquele microcosmo fervilhava em enlaces feitos e desfeitos, o brilho que encanta momentâneo como a luz de uma estrela cadente adentro na atmosfera.

O flerte era a constante, seja nos pares já formados ou naqueles em formação. Havia ainda alguns aparentemente despropositados, tal qual ele próprio, mas sempre há propósito, mesmo quando este não seja conscientemente arquitetado.

Assim subitamente seus olhos cruzaram com os dela. A média distância eles se entreolhavam, ele sustentava a visão turva enquanto ajustava a postura e libertava no espaço um meio sorriso ao mesmo tempo que elegantemente levava novamente aos lábios o seu copo com whisky.

Ele há muito já passara da meia idade, e tal situação, uma paquera inesperada, o levou direto para a sua juventude. Sentir-se novo era como um sopro adicional de vida que ele precisava e não sabia.

Ele insere o dedo indicador direito dentro do copo mexendo as pedras de gelo enquanto erguia desajeitado uma única sobrancelha, lembrava-se de ter visto isso em um filme qualquer. A moça cujos cabelos loiros refletiam as luzes alaranjadas daquele bar continuava a lhe observar sem descrição.

Apesar do escancarado interesse demonstrado por ela, ele não conseguia identificar no semblante da moça a sua verdadeira face ou intenção. Tudo estava um pouco desfocado, mas ele estava gostando daquele gostoso jogo de sedução. Deste modo haveria de permanecer entre olhares por mais alguns instantes, antes de se levantar e formalmente se apresentar a bela e misteriosa dama.

Sua face já rosava, um pouco pela bebida, um pouco pela situação. Sorrisos já escapavam com mais facilidade seguindo no ar rumo ao seu inesperado alvo, a moça loira do bar.

Seria ela bonita? De onde estava não conseguia identificar seus traços, apenas lia os contornos de suas formas e suas cores parcialmente borradas, mas ainda assim discerníveis.

Mas isso não mais importava, afinal a beleza estava no momento que já se eternizava em seu íntimo, e isso sim era uma marca a ser festejada.

Ele aspira profundamente o ar enchendo o peito em coragem e determinação. Se levanta de sua cadeira quando quase que instantaneamente a moça acena em sua direção.

Ele sorri e balança a cabeça para os lados em total excitação. Satisfeito caminha lentamente, ensaia um gingado, e segue cambaleante com o copo de whisky em riste em sua mão. A poucos passos da mesa de destino um outro corpo passa apresado por ele.

Era uma jovem de cabelos negros e sorriso emoldurado por um reluzente batom vermelho. A moça loira se levanta e abre os braços envolvendo a moça morena em um tenro, porem apertado, abraço. A loira olha para a morena nos olhos e diz com as brilhantes e dilatadas pupilas. Estava ansiosa lhe esperando. Em seguida elas se perdem em um beijo acalorado e emoldurado pelo batente da porta de entrada.

Ele detém-se por um instante tentando entender o que ocorria sem esconder a fria e dilacerante frustração. Segue em seus passos agora já incertos, passa ao lado do casal recém-formado e avança incrédulo rumo ao sanitário.

Lá, parado defronte ao espelho se questiona. Maldita miopia! Nunca mais saia sem os seus óculos. Nunca!

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Sou um amigo de poucos amigos. Digo daqueles especiais de fato. Pelo menos é o que permite a minha visão deficiente de longínquos horizontes. Não significa que eu não seja popular e bem-quisto por ond