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  • Anderson Luis da Silva

Felizes para sempre!

Carla e Bruno se conheceram em dois mil e quinze, era uma noite agradável de primavera, ambos estavam felizes e bebiam em descontraída animação quando os seus olhares se encontraram em meio a multidão. Bruno aproveitou a oportunidade, Carla havia se levantado da mesa para ir até o banheiro, ele a esperou sair e a recepcionou com um sorriso largo e brilhante, o que de pronto fez com que Carla retribuísse o afago.

Desde então nunca mais se separaram, o encontro casual evoluiu para um namoro, este para um noivado, e haveriam se casado caso os seus planos não houvessem sido modificados pela chegada súbita de uma pandemia.

O casamento que estava marcado para o mês de maio do ano de dois mil e vinte teria que ser adiado, nada que atrapalhasse o amor maior que sentiam um pelo outro. Decidiram viver o isolamento juntos, desta forma antecipariam o inevitável, cuja efetivação seria apenas um pouquinho atrasada.

A convivência diária se mostrava harmônica, sentiam-se vivendo como em um filme açucarado. Ele a acordava com o café na cama, ela o sujava com as mãos enfarinhadas no preparo do bolo, rolavam pelo piso como crianças, o sorriso era o imperativo daquela relação que se punha como perfeita.

Quando ela notava a aflição no semblante de Bruno em função de um problema profissional, se aproximava abraçando-o por trás e deferindo-lhe um beijo longo na face. Ele surpreso, tapava repentinamente a câmera do computador com uma das mãos tentando evitar que seus colegas vissem inesperada situação. Ela ria enquanto se afastava, ele recompunha-se enquanto voltava a atenção mais relaxado para a enfadonha reunião.

À noite, após livrarem-se dos afazeres do dia, cozinhavam após um banho juntos. Ele tinha mais habilidades na cozinha, ela o acompanhava e auxiliava em tudo, dividiam assim as mãos cheirando a alho, um belisco na massa recém sovada, um passar de dedo no caldo que se adensava. Sorriam.

O jantar era servido à mesa, vezes acompanhado por vinho, noutras por uma gelada cerveja, bebiam até um digestivo licorzinho. A louça, deixavam para o dia seguinte, pois o amor continuaria no quarto onde dormiam sempre abraçados. Ela com a cabeça apoiada sobre o peito dele, ele com o nariz encostado nos cabelos dela.

O ano foi passando, a diversão rareando, o isolamento mexia com os ânimos, mas era bom ter alguém com quem conversar. No entanto, as conversas na lavanderia quando Carla sentava-se por sobre a máquina de lavar aninhando Bruno por entre as suas pernas rareavam. A cerveja gelada, que refrescava a felicidade e relaxava os corpos quentes na tênue embriagues, já não descia da mesma forma.

Eles haviam entrado muito rapidamente em um estado ne inanição conjugal. Bruno acordava todos os dias rabugento e seguia para o banheiro a revelia do sono de Carla. Ela, por sua vez, apanhava um copo com suco de laranja e sentava-se no sofá da sala enquanto se atualizava nos grupos do whatsapp e em suas redes sociais.

Ambos atuavam em suas atividades profissionais remotamente. Bruno vestia camisa e gravata, mas mantinha a bermuda. Carla já se negava a tirar o pijama. Ele encadeava reuniões em vídeo conferência ao longo de todo o dia. Ela ocasionalmente preenchia planilhas e corrigia processos. O bater seco do teclado de Carla incomodava a concentração de Bruno. As falas contínuas e exacerbadas das reuniões de Bruno, enfadava Carla, fazendo com que ela se retirasse do ambiente e fosse fumar na varanda.

Ela havia voltado a fumar durante o isolamento social, hábito que tinha largado antes mesmo de conhecer Bruno. Ele por sua vez nunca havia fumado e verbalizava o seu asco pelo tabaco sempre que ela passava por ele após um trago.

No final do dia Bruno recostava-se no sofá e ligava o videogame, seguiria jogando até o horário de dormir. Carla trancava-se no quarto e tentava se concentrar na leitura de um livro qualquer em meio aos sons de gritos e tiros que vinham do ambiente ao lado.

Horas mais tarde, quando Bruno terminava de descarregar o seu stress diário por meio das mortes que impunha aos demais jogadores, ele seguia para um banho rápido. Carla assumia o seu lugar no sofá. Quando ele passava por ela, desejava uma boa noite e inclinava-se para um beijo breve em sua boca detendo-se em protesto. -Você fumou, que nojo porra! Carla suspirava impaciente enquanto buscava uma série no Netflix.

Bruno roncava, mesmo com a porta fechada, o som grave de seu sono escapava para a sala fazendo com que Carla aumentasse o volume da televisão. Ela dividia a atenção entre a tv e os inúmeros bate-papos que tinha pelo aplicativo do celular.

Reclamava da vida com as amigas mais próximas, flertava com um velho amigo de trabalho que como ela vivia as mazelas do convívio, escapava da rotina se imaginando em outros mundos. Não raro adormecia no sofá.

O tempo passava e aproximava o dia agendado para a tão desejada cerimônia. Bruno e Carla já não estavam certos disso. Após um longo período em que as conversas eram poucas, decidem enfim falar.

Em uma tarde agradável de primavera, Carla e Bruno, se despedem pela última vez.

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