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  • Anderson Luis da SIlva

Ensaio sobre o tempo!


Eis que de repente, não mais que de repente, tudo mudou ao nosso redor. Jazíamos na cotidiana faina, meandros de uma vivência trivial, onde o suceder dos dias se assemelhava aos do passado ao mesmo tempo em que anteviam os de um desejoso futuro.

Mas tudo mudou na frivolidade do tempo, aquele mesmo que corria sem que pudéssemos nos ater de sua passageira existência. Aquele que coroávamos com uma corriqueira constatação: o tempo passa voando.

O tempo, no entanto, não passa. O tempo não é um fluxo contínuo de eventos, tampouco pode ser retrocedido ou avançado em função de nossas necessidades. Ele apenas é uma porção abstrata utilizada para descrever a vida que tivemos, a que temos e a que pretendemos ainda ter.

E aqui estamos nós frente a um imprevisto amanhã. E ele chegou sem alarde, mesmo que acenasse ao longe, nos parecia improvável ou ainda pior, problema de outros. Mas agora circula do lado de fora de nossas portas. Se põe como um indesejado vizinho.

As rotinas inquebráveis, os planos necessários, o arrependimento, a cobrança, os prazos curtos e invioláveis, o registro de presença, a angústia pelo girar do relógio sem vida que insiste em marcá-la. Tudo ficou congelado, em segundo plano, adiado. Pudemos circundar tais espectros sociais e os observar pelo lado de fora. De repente, não mais que de repente tudo havia mudado.

Enraizados que estávamos, tentamos desesperadamente reproduzir aquela rotina a qual estávamos condicionados, sem refletir que não cabe, não dá, não pode ser do mesmo jeito. Algumas constatações vão colidindo em nossas verdades, e percebemos que a pluralidade é um substrato social. Não só no que tange o ser humano, mas sobretudo no poder “ser capital”.

Tínhamos a certeza do protagonismo da tecnologia, sobretudo as informáticas, na mitigação das distâncias, na manutenção dos fluxos, na possibilidade de permanência da comunicação. Percebemos, no entanto, que ela não é disponível a todos, tampouco, possibilita que todos possam dela extrair o que o corpo a corpo possibilitava.

Saudade do papo sob a copa da árvore que de recurso só nos dava a sombra.

Estamos vivenciando um presente antiutópico. A ficção nos brindava com tais possibilidades, as quais se restringiam às instâncias do imaginário e assim seguíamos as nossas vidas, absortos dos percalços apocalípticos que se desenhavam nos bastidores da sociedade contemporânea. Dentre os quais uma improvável pandemia que teria, dentre outras consequências, a capacidade de frear o capitalismo.

Neste momento, nos vemos como aqueles que montados em seus carros potentes cruzavam os desertos de Mad Max em busca de recursos, ou quem sabe um Will Smith solitário na devastação americana, ou ainda na esperança de que James Cole venha do futuro para evitar a pandemia, ou quem sabe Morpheus revele ao ingênuo Neo que tudo não passa de uma ilusão criada pela Matrix.

Vivemos o que na ficção um dia desenhamos!

Mas, se aprendemos algo significativo nas variadas narrativas ficcionais, é a necessidade de seguir. Os heróis são aqueles que sobrevivem em função de uma esperança ininterrupta de reconstruir. Não uma sociedade tal qual aquela que desencadeou o fatídico fim, mas, uma outra que seja melhor e mais justa. Uma nova chance de se começar para que assim de posse da experiência advinda de um hipotético fim, possamos ser um pouco melhores do que anteriormente éramos.

É um momento de reflexão, um período para repensar os nossos propósitos, de entender quanto o tempo, aquele mesmo que nos faltava em função de uma aceleração maquínica, nos é caro. E ainda mais caro o outro com quem o compartilhávamos.

Continuemos com as ferramentas que dispomos em função de nosso compromisso, mas sobretudo atentos aos limites e as necessidades do outros.

Sem o NÓS o tempo se restringe ao pouco do EU.



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