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  • Anderson Luis da Silva

Depois da pandemia!

Atualizado: Mai 4

Danilo estava feliz, a pandemia que assolara o mundo a partir do ano de dois mil e dezenove havia enfim terminado. Ele contemplava em pé, na varanda de seu apartamento, o nascer do sol no horizonte distante. Havia permanecido isolado ali desde o início, suas saídas eram esporádicas, seu contato com o mundo externo possibilitado pela internet e pelos programas da televisão.

O mundo tinha mudado, não havia dúvidas quanto a isso, assim como ele também se sentia diferente. Os acontecimentos dos últimos anos impactaram de modo decisivo a vida de todas as pessoas, os sobreviventes haveriam de reinventar o mundo em que viveriam, ou seja, não seria apenas o retomar.

Ele sentia saudade, especialmente daquilo que tinha sem nem mesmo saber, o contato direto com outro ser humano. Danilo aproveitou o confinamento para refletir sobre o que o tempo significava. O que justificaria o seu fluxo constante à revelia daqueles que presos em suas determinações seguiam o natural processo do envelhecimento? O tempo como intangibilidade se mostrava muito material em seu corpo combalido pelo longo isolamento social.

Danilo entendera que o tempo era apenas um outro nome possível para a vida. O tempo que se foi equivalia a porção vivida ou perdida. Isso fazia com que ele olhasse para o relógio e entendesse pela primeira vez o seu real e único significado, aquele engenhoso instrumento marcava o passar contínuo da existência.

Ele rememorou em flashs episódios passados, o papo no bar, o ver televisão a tarde deitado no sofá, o futebol com os amigos, a ressaca de domingo, o amor que não fez, o trabalho diário, o sonho esquecido, o projeto no futuro, as chegadas, despedidas que já não significavam mais nada. Memórias de um tempo longínquo.

Vida é igual a tempo, perder tempo implicará em perder vida. Postula ele enquanto o sol irrompe acima do horizonte ganhando o céu daquele dia. A luz irradia pela cidade trazendo uma aura de esperança a um tempo novo que começava ali.

Danilo escuta o apito da chaleira informando que a água já havia fervido. Adentra o apartamento cruzando a sala em direção a pequena cozinha. Ele despeja a água aquecida no coador fazendo com que o aroma de café coado invada suas narinas revigorando os seus neurônios ainda meio adormecidos pela longa noite em sono.

Ele se serve. Precisava de uma boa porção de cafeína para enfrentar o dia que raiava. Senta-se no sofá da sala apoiando os cotovelos sobre os joelhos e empunha a caneca com o café entre as duas mãos.

Olha fixamente para a rama verde que crescia no lado oposto da sala. Durante a pandemia havia investido em jardinagem, o que convertera o seu apartamento em uma pequena floresta urbana. Se isso persistir, preciso garantir minimamente minha alimentação. Pensou ele quando um ano antes plantou uma batata naquele vaso.

A manutenção da vida requer alimento, racionalizou no momento de incerteza. Danilo havia formado uma pequena horta e pomar nos poucos metros quadrados de seu apartamento. Um dia colherei uma maçã sentado neste sofá. Considerava ele satisfeito.

A sobrevivência implicaria na obtenção e manutenção de duas dimensões essenciais, alimentos e abrigos, ou seja, aquilo que confere energia ao corpo e aquilo que o protege do externo. Uma terceira categoria converteria a sobrevivência e vivência, a ela ele chamou de amor.

Os requisitos da vida, então, estavam contidos nestas três dimensões, deste modo ele precisaria garanti-las em caso de um colapso do mundo conhecido, pois a sua disponibilidade garantiria a sua existência, em contrário, morreria.

Aqueles pensamentos apocalípticos passaram por sua cabeça, não havia como evitar tais questionamentos frente aos inimagináveis acontecimentos que vivenciavam. Na televisão os repórteres noticiavam o incremento no número de casos e mortes dia após dia, não havia ações efetivas por parte das autoridades para a sua minimização, tampouco, significativa parcela da população agia de modo apropriado a contenção da pandemia, e o vírus se alastrava levando consigo parentes, amigos, famosos e notórios desconhecidos. Cepas surgiam ampliando a letalidade do agente biológico, dificultando o seu combate, condenado os corpos infectados, cada vez mais, a morte.

Mas isso havia ficado no passado, pois raiava ali um novo dia, onde tudo seria diferente, reinventado. Imagina ele esperançoso enquanto sorvia o último gole do café recém preparado.

Danilo coloca a caneca sobre o caixote que servia de mesa de centro e levanta-se do sofá surrado retornando para a apertada varanda. Observa a movimentação se adensando na cidade lá embaixo. Os fluxos sendo reestabelecidos no ir e vir cotidiano daquela gente. Mas ele se sentia levemente diferente. Não bastaria retomar a vida de antes, pois havia ele descoberto o porquê de ela existir, ou, a razão pela qual haveria de garantir o tempo que ainda tinha, o que haveria de vir.

Devemos ser e fazer feliz! Diz ele em voz baixa para o mundo lá embaixo. Em outros tempos deixaríamos para o amanhã o sorriso, pois no hoje, privilegiaríamos o compromisso sem nos darmos conta que o amanhã é apenas uma potencialidade, nada garante que ele existira. Vocês só têm o hoje para serem felizes! Grita ele para o povo que caminhava lá embaixo.

As pessoas seguem suas rotinas alheias a presença de Danilo. Mesmo que houvessem escutado a sua voz, ainda assim, seguiriam sem lhe ouvir.

Por que o mundo é assim?

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