Casamento!
Atualizado: 27 de ago.

Sentado na varanda de seu apartamento, no vigésimo segundo andar, ele olhava para a cidade que passava sob os seus pés. Repleta de luzes cintilantes e cacofônicas ilações, ela balbuciava o ininteligível, vendia-se como morada enquanto circunscrevia os horizontes. A noite estava quente; a cerveja gelada, cuidadosamente armazenada em uma caixa térmica disposta ao lado de seu assento improvisado, ajudava a aliviar a temperatura e a tensão.
Ele conseguia vislumbrar, pelas janelas do prédio da frente, a vida íntima de seus vizinhos, que, alheios à sua presença e à sua atenção, seguiam as suas rotinas de vida feliz.
Ele fora casado algumas vezes, e isso, de alguma forma, pelo menos em sua mente pouco acostumada à modéstia, fazia dele uma autoridade na arte de casar. Vale ressaltar que isso em nada tem a ver com o chamado sucesso no casamento, mas, sim, com o conhecimento adquirido empiricamente na convivência com outros corpos e mentes — e a partir dela —, por vezes doentes, noutras, dormentes.
Em sua primeira experiência, ainda muito jovem, ele acreditou no amor fraterno. Hoje, com o distanciamento histórico necessário para tal avaliação, ele se define, naquela época, como um ingênuo esclarecido. Não, não pensem que ele fora a vítima passional de uma relação imatura. Ao contrário, ele protagonizava com ela o desastre iminente.
Não há também juízo de valor a ser estabelecido em função das ações e reações do casal apaixonado que, em matrimônio, diante de um padre, jurou fidelidade. Até porque a primeira fidelidade diz respeito a si próprio; a segunda, quem sabe, àquilo que nos cerca.
Sua segunda relação foi baseada no amor tesudo. Ele ainda se lembrava, com excitação, dos primeiros momentos que os levaram a uma vida em comum. Um flerte, um beijo, os abraços incontidos dados em um bar qualquer. Havia, decerto, carinho e alguma cumplicidade a ser estabelecida. Mas, apesar da completude, via-se incompleto. O casal carecia de planos conjuntos, de sonhos uniformes, de escolhas síncronas. Assim, a relação terminou numa tarde vazia de sábado, mesmo estando ele ciente de que aquilo que faltava talvez não fosse, de fato, o essencial. Foi.
Eis que surgiu a terceira pessoa dessa jornada, e esta lhe foi determinante em muitos pontos que permitiram que estivesse hoje onde estava. Não me refiro à varanda de seu apartamento, mas ao pensamento esclarecido e crítico que atualmente o caracterizava. Foi com ela que ele se descobriu ignorante, inculto e despreparado. Mas foi também com ela que, em função das deficiências evidenciadas, pôde trabalhar para saná-las. Mas o tesão? Ah, não! Não havia.
E assim se iniciou o quarto relacionamento desse incauto casamenteiro. Neste, a perfeição se mostrava aparente. Ele próprio já vinha lapidado; ela, por sua vez, também brilhava. Não havia o que questionar quanto à perfeição ali estabelecida. O que pesou foi a constatação de que tudo aquilo sempre fora paixão, nunca amor. Assim, durou o tempo efêmero das paixonites, que, movidas pelas novidades, queimam em brasa, mas, nas coisas do dia a dia, esfriam até congelar. Assim acabou.
O quinto foi pura vaidade. Ele, já descrente da existência de relações duradouras, aventurou-se na frivolidade de um beijo, converteu-o em desejo e, de alguma forma, despejou nele as mágoas acumuladas de outros. Durou pouco, mas mais do que deveria ter durado.
Enfim, veio o sexto, no qual ele, seguro de seus valores e de seu potencial, pôs em uso o seu arsenal ideológico conquistador. As coisas se iniciaram tal qual se iniciam as relações, duradouras ou não, mas ele sabia que aquilo sempre fora um jogo. Havia um estratagema em curso, no qual cada um movia as suas peças em busca do golpe final. Essa partida foi a que mais durou em sua vida, acabando muitos anos mais tarde com um xeque-mate. Mas, apesar do fim, não houve vencedor.
Agora, postado ali, a observar as silhuetas nas janelas, refletia sobre a vida conjugal. Podia ver casais assistindo à televisão, outros distantes um do outro, alguns poucos sentados na varanda, como ele. Seria ele também observado e lido tal qual fazia? Algumas janelas mostravam crianças; outras, o desassossego; poucas, a alegria incontida.
A ideia de voltar a se casar passava longe de seus planos imediatos. Ele havia adquirido o gosto pela liberdade. Sabia agora que os planos formulados pela manhã mudavam ao longo da tarde para, enfim, à noite, perderem-se no acaso.
O casamento deveria ser uma instância exclusivamente racional, tal qual uma sociedade estabelecida em função de um empreendimento qualquer. O casamento como negócio sobreviveria enquanto houvesse demandas a serem atendidas nesse mercado matrimonial. No entanto, não fazia muito sentido pensar no casamento como investimento, visto que os custos de manutenção extrapolavam os ganhos potenciais, mas, para alguns, poderia funcionar.
O casamento romantizado, no qual o amor inabalável mantém as mãos entrelaçadas mesmo quando o barco está naufragando, para ele, não existia. Sim, havia, em alguns casos, a permanência de um carinho saudoso que, para alguns, era suficiente para continuar. Ele entendia isso como desistência. A desistência de si para consigo próprio.
Há, para muitos, o conformismo e a aceitação de viver próximo ao regular e, nesses casos, as desculpas envolvem filhos, patrimônio, família. Ah! Se fosse para viver o pouco, para ele não parecia compensar. O melhor plano é aquele que envolve seguir sozinho, postulava em silêncio.
Ele sentiu, de súbito, um par de mãos deslizando de seu pescoço até estacionar em seu peito. Um abraço silencioso vindo de trás trazia consigo um cheiro adocicado e inebriante, um toque sedoso e suave, um hálito quente e perfumado, uma voz melodiosa que dizia em seu ouvido:
— Amor, vem! Vamos deitar e ficar juntinhos.
— Eu te amo — respondeu ele, sorrindo antes de se levantar.





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