Casamento!



Sentado na varanda de seu apartamento no vigésimo segundo andar, ele olhava para a cidade que passava por sob os seus pés. Repleta de luzes cintilantes e cacofônicas ilações, balbuciava o ininteligível, vendia-se como morada enquanto circunscrevia os horizontes. A noite estava quente, a cerveja gelada cuidadosamente armazenada em uma caixa térmica disposta ao lado de seu assento improvisado, ajudava a aliviar a temperatura e a tensão.

Ele conseguia vislumbrar pelas janelas do prédio da frente a vida íntima de seus vizinhos, que alheios a sua presença e atenção, seguiam as suas rotinas de vida feliz.

Ele fora casado algumas vezes, e isso de alguma forma, pelo menos em sua mente pouco acostumada a modéstia, fazia dele uma autoridade na arte do casar. Vale ressaltar que isso em nada tem a ver com o chamado sucesso no casamento, mas no conhecimento adquirido empiricamente na, e da, convivência com outros corpos e mentes, por vezes doentes, noutras dormentes.

Em sua primeira experiência, ainda muito jovem, ele acreditou no amor fraterno. Hoje com o distanciamento histórico necessário para tal avaliação, ele se define naquela época por um ingênuo esclarecido. Não, não pensem que ele fora a vítima passional de uma relação imatura, em contrário, ele protagonizava junto com ela o desastre iminente.

Não há também juízo de valor a ser estabelecido em função das ações e reações do casal apaixonado que em matrimônio em frente a um padre jurou fidelidade. Até porque a fidelidade primeira diz respeito a si próprio, a segunda, quem sabe, para com aquilo que a nós cerca.

Sua segunda relação foi baseada no amor tesudo. Ele se lembrava ainda em excitação dos momentos primeiros que os levaram a uma vida comum. Um flerte, um beijo, os abraços incontidos dados em um bar qualquer. Havia de certo o carinho e alguma cumplicidade a ser estabelecida. Mas apesar da completude se via incompleto. O casal carecia de planos conjuntos, de sonhos uniformes, de escolhas síncronas. Assim terminou numa tarde vazia de sábado, mesmo ele estando ciente de que o que faltava, talvez, não fosse de fato o essencial. Foi.

Eis que surge a terceira pessoa desta jornada, e está lhe foi determinante em muitos pontos que permitiram que estivesse hoje onde ele estava. Não me refiro a varanda de seu apartamento, mas ao esclarecido e critico pensamento que atualmente o caracterizava. Foi com ela que ele se descobriu ignorante, inculto e despreparado. Mas também com ela, que em função de suas deficiências evidenciadas, ele pode trabalhar para saná-las. Mas o tesão? Ah não! Não havia.

E assim inicia-se o quarto relacionamento deste incauto casamenteiro. Neste a perfeição se punha aparente. Ele próprio já vinha lapidado, ela por sua vez também brilhava. Não há o que questionar quanto a perfeição ali estabelecida. O que pesou é a constatação de que tudo aquilo sempre foi paixão, nunca foi amor. Assim durou o tempo efêmero das paixonites, que movidas pelas novidades queimam em brasa, mas nas coisas do dia a dia esfriam até congelar. Assim acaba.

O quinto foi pura vaidade. Ele já descrente da existência de relações duradouras, aventurou-se na frivolidade de um beijo, converteu-o em desejo, e de alguma forma despejou neste as magoas acumuladas de outros. Durou pouco, mas mais do que deveria durar.

Enfim o sexto, onde ele, seguro de seus valores, de seu potencial, pôs em uso o seu arsenal ideológico conquistador. As coisas iniciaram tal qual se iniciam as relações duradouras ou não, mas ele sabia que aquilo sempre foi um jogo. Havia um estratagema em curso, onde cada qual movia as suas peças buscando pelo golpe final. Esta partida foi a que mais durou em sua vida, acabando muitos anos mais tarde com um cheque mate. Mas, apesar do fim, não houve vencedor.

Agora postado ali a observar as silhuetas nas janelas refletia sobre a vida conjugal. Podia ver casais assistindo televisão, outros distantes um do outro, alguns poucos sentados na varanda como ele. Seria ele também observado e lido tal qual fazia? Algumas janelas mostravam crianças. Outras o desassossego. Poucas a alegria incontida.

A ideia de voltar a se casar passava ao longe de seus planos imediatos. Ele havia adquirido o gosto pela liberdade. Sabia agora que os planos formulados pela manhã mudavam ao longo da tarde para enfim na noite se perderem no acaso.

O casamento deveria ser uma instância exclusivamente racional, tal qual a sociedade estabelecida em função de um empreendimento qualquer. O casamento como negócio sobreviveria enquanto houvessem demandas a serem atendidas neste mercado matrimonial. No entanto, não fazia muito sentido pensar o casamento enquanto investimento, visto que os custos de manutenção extrapolavam os ganhos potenciais, mas para alguns poderia funcionar.

O casamento romantizado, cujo o amor inabalado mantem as mãos entrelaçadas mesmo estando o barco naufragando, para ele, não existia. Sim, havia em alguns casos a permanência de um carinho saudoso, que para alguns, era o suficiente para o continuar. Ele entendia isso como desistência. A desistência de si para com si próprio.

Há para muitos o conformismo e aceitação do viver próximo ao regular, e nestes casos as desculpas envolvem filhos, patrimônio, família. Ah! Se for para viver o pouco, para ele parecia não compensar. O melhor plano é aquele que envolve o ir sozinho, postulava em silêncio.

Ele sente de súbito um par de mãos deslizando do seu pescoço até estacionar em seu peito. Um abraço silencioso vindo de trás, trazia consigo um cheiro adocicado e inebriante, um toque sedoso suave, um hálito quente e perfumado, uma voz melodiosa que dizia em seu ouvido: Amor, vem! Vamos deitar e ficar juntinhos.

Eu te amo, responde ele em sorriso antes de se levantar.

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