Amigos!

Sou um amigo de poucos amigos. Digo daqueles especiais de fato. Pelo menos é o que permite a minha visão deficiente de longínquos horizontes. Não significa que eu não seja popular e bem-quisto por onde quer que eu passe, apenas nunca sei para quem ligar nos momentos em que careço. Simples! Esqueço das referências ditas por amizades, e assim padeço da solidão. Não que esta seja de todo ruim. É nela onde escrevo as primeiras linhas que oferto depois aos amigos, os quais nunca quase leem. Se sinto falta da conversa com amigos quanto aquilo que registro em palavras, eu não sei. Pouco tive para experimentar, e assim sendo, não há como avaliar o que não se conheceu ou pouco se viveu. Mas amigos não são obrigatoriamente leitores, tampouco consumidores daquilo que a gente fez. Se tivesse que defini-los, algumas categorias seriam necessárias para acomodá-los adequadamente, e de certo, alguns transbordassem. Teríamos os que preencheriam o quadrante da psicanálise. Amigos adoram compartilhar contigo suas próprias verdades e sempre, ou quase sempre, possuem as respostas para as suas dores covardes. Há também aqueles que estariam à vontade numa mesa de bar qualquer, trocando banalidades entre um copo e outro de cerveja, afogando as mágoas e exacerbando a alegria por meio do porre alcoólico. Há os de longa data, os de agora, os por hoje, e os dos efêmeros amanhãs. O amigo é sempre um outro em potencial, um ser indiscernível na multidão, mas reconhecível num esbarrão despropositado. Amigo também é memória, é saudade, é desejo, é amor, é paixão. O engraçado da amizade é a sua revolta temporal. O tempo passa corrido em meio aos dias, fazendo com que nos esqueçamos de quem somos, ou fomos, ou quem sabe ainda aquilo que queremos um dia vir a ser. Mas, quando revemos um amigo que o acaso trouxe do passado para o presente sem prévio aviso, percebemos que foi tudo ontem. Aquele alargado do tempo na distância abranda-se na presença daquele que a muito não mais víamos, mas que a revelia de suas peregrinações geográficas jaz sempre na extensão de um abraço. Há os amigos imaginários, que até nome possuem, e tal qual os de carne e osso, interagem na medida do permitido com as coisas de nossa mente e de nossa alma. Outros se quer sabem de nossa amizade e admiração, seja por nunca termos nos vistos, ou simplesmente por não termos nos notado. Invisíveis numa amizade constituída pelo entusiasmo unilateral, ou não. Quem sabe? Talvez eu não seja um amigo de poucos amigos tal qual anunciei no início deste texto. Apenas seja um péssimo discador. Um mal buscador do outro que ali espera para exercitar aquilo que nomeamos por amizade.

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