Puta!

O dia amanhecia morno e Valquíria ainda aguardava pelo seu derradeiro cliente. A noite havia sido movimentada, mas o sucesso almejado exigia o esforço despendido, assim ela permaneceria em seu posto até o surgir sorrateiro dos primeiros raios de sol.

Trajava uma saia curta de couro preto. Sua blusa diminuta era adornada por cintilantes e rosados detalhes em strass que lhe conferia um brilho esfuziante frente aos faróis dos veículos que por ela passavam. As sandálias de saltos agudos conferiam altura ao seu corpo miúdo ao mesmo tempo em que torneavam as suas pernas expostas.

Ao longo da madrugada, entre um cliente e outro, um carro, com jovens visivelmente embriagados, passou por diversas vezes pela rua onde costumava ficar. Pela janela entreaberta gritavam enfurecidos a cada passagem: Puta!

Valquíria havia criado uma casca protetora ao longo dos anos. A vida nas ruas se faz violenta e era necessária uma armadura para enfrentá-la. Um dia sonhara em ser escritora, mas isso ficara no passado junto aos sonhos de uma vida ainda imersa na ingenuidade infantil.

Sofreu abusos quando em seu primeiro emprego como recepcionista em uma pequena empresa de contabilidade. Nada que se distanciasse dos inúmeros outros sofridos ao longo de sua curta e penosa vida.

Quando se viu só, trazia a companhia de um ventre cheio, fruto da sacies sem escrúpulos de um estranho transeunte. Fora largada a própria sorte. Para muitos a culpa era só dela. Vadia diziam! Suas roupas indicam o que você gosta. Vagabunda! Se tivesse modos não teria passado por isso, postulavam eles em furiosa bravata.

O rebento sem nome foi deixado para adoção, ela não conseguiria criá-lo vendo em sua face angelical a semelhança com o demônio que a violara sem permissão. Puta, diziam eles. Mas o seu bebê não haveria de ser um “filho da puta”, mesmo vivendo longe da mãe de parto, haveria ele de encontrar em sorte uma mãe de fato e, assim ter uma “puta vida”.

Naquela madrugada fora exposta mais uma vez a violência verbal, ao julgamento visceral daqueles que se sentiam no direito do fazer sofrer. Mas Valquíria havia aprendido com a vida dura a qual fora submetida, assim ela sabia que o exposto em violência trazia nas entrelinhas a real significação, mesmo que a revelia da intelecção daqueles que proferiam tal heresia a aquela que batalhava dia após dia para sobreviver.

Puta é sinônimo de coisa boa, como quando damos em alguém um “puta beijo”, um “puta abraço” e demais “putas coisas”. Ou mesmo quando as vezes nos bate uma “puta saudade”, uma “puta vontade de estar junto” e um “puta carinho”.

Desejamos aos amigos ao entardecer que tenham uma “puta noite”, uma “puta festa” e por que não; eu estava “puta a fim de ir junto”. Enfim, puta é sempre tudo de bom, especialmente quando convertemos o que é pejorativo enquanto substantivo em um dignificante adjetivo.

Já os filhos dela, e não me refiro ao rebento abandonado, mas de modo figurado e definidor de caráter àqueles que são caracterizados pela carência de confiança, do fazer o mal sem temperança, do machucar gratuito, do julgar sem sentido. Esses são os ditos “filhos da puta”.

Puta refere-se ao excesso. Sim ser puta é sempre muito. Neste sentido é certo que em algumas situações a condição “puta” não seja bem-vinda. Quando, por exemplo, estamos com uma “puta dor de cabeça”, em geral, causada por um “filho da puta” qualquer. Sendo assim caberia a isenção da puta de qualquer reprimenda, o culpado era o filho dela.

A puta sempre estava presente nos momentos memoráveis de nossas vidas, seja naquela “puta viagem”, ou mesmo na “puta preguiça de sair da cama”, as vezes em um “puta show” de nossa banda predileta. Poderíamos dizer que antagonicamente se seu filho aparecesse poria por água abaixo qualquer “puta programa”, pois um filho da puta tende sempre a estragar tudo.

Valquíria sabia da existência de muitos filhos a vagar por aí, não dela, mas os da puta. Haveria sempre o “filho da puta” no trânsito, o “filho da puta” na escola”, o “filho da puta” na vizinhança, o “filho da puta” da mesa ao lado no trabalho, o “filho da puta” nos filmes do cinema, este último, por sinal, pode converter-se em “puta ator” se o que fazia dele um “filho da puta” for só encenação.

É intrigante como alguém do bem, como uma puta, pode gerar em metáfora algo tão asqueroso quanto o “filho da puta”. Infelizmente temos que conviver com os dois, pois uma mãe normalmente não se distancia de seu filho se não para o bem dele, a não ser que ela própria seja uma “filha da puta” também.

E nesse dilema Valquíria seguiu sonhando com uma “puta vida”, e desejamos do fundo do triste coração que nenhum “filho da puta” se atreva a estragá-la novamente.

Ela um dia sonhou em ser uma “puta esposa” frente ao amor de um “puta homem”, viver a rotina em uma “puta casa”, ter um “puta emprego”, mas ela sabia que por vezes o anseio de encontrar um “puta” acabava por levar ao encontro de um “ filho da puta”.

Em sua humilde opinião deveríamos evitar os “filhos da puta” e nos entregarmos de cabeça nos braços de sua mãe, a fim de ganharmos um “puta abraço” seguido de uma “puta sensação de proteção”.

Outro exemplo claro aconteceu enquanto ela refletia sobre estas questões, os “filhos da puta” do carro passaram gritando novamente para lhe desconcentrar.

Assim Valquíria desistiu do último cliente. Iria para casa e teria um “puta sono” para quem sabe no dia seguinte poder voltar a sua “puta luta” por uma vida mais tranquila longe dos “filhos da puta”.

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