Goya
Atualizado: 27 de ago.

Francisco de Goya estava atônito. Havia muito já não podia ouvir o mundo em razão de uma doença que, aos quarenta e sete anos, o acometera. Mas agora o som não lhe faltava. Os estalos, as batidas, o tilintar das espadas, o ricochetear das balas nas paredes e nas pedras, os gritos, os urros e os sussurros: tudo era audível.
Sua visão embaçada mirava as cabeças cortadas, apartadas de seus corpos; o sangue esparramado; os sorrisos nas bocas e nos olhos daqueles que abatiam, em contraste com o doloroso flagelo dos que ali caíam.
Pouco sabia sobre o homem que, ajoelhado sob a mira das armas, abria os braços em rendição, tal qual Cristo em sua cruz. Goya imaginava ter visto chagas nas palmas de suas mãos. Talvez fossem apenas borrões de uma imaginação abalada, pois, de onde estava, muitos detalhes escapavam-lhe à total compreensão.
Observava a barbárie recostado a uma parede de pedra, parcialmente ocultado pela penumbra do vão.
Aquele 3 de maio de 1808 terminava de forma trágica. Muitos daqueles que, agora rendidos, aguardavam a sua vez de morrer haviam participado, no dia anterior, da insurreição popular. Os heróis que lutaram contra a tirania da ocupação francesa agora se convertiam em cadáveres anônimos.
Os soldados, cujos rostos ele não conseguia observar, engatilharam as suas armas. O homem, cuja camisa branca parecia acenar como um derradeiro pedido de paz, franziu o cenho, antecipando a dor. As balas zuniram no ar gelado antes de atingirem o corpo de seu compatriota, fazendo-o cair para o lado.
Os soldados franceses, como em um balé sincronizado, moviam os canos de suas armas de um lado para o outro. O cheiro de sangue podia ser sentido, bem como o seu calor viscoso, que se acumulava pelo chão de terra batida.
Goya voltou o olhar para uma imagem que, sorrateira, observava as execuções, assim como ele fazia. Encostada ao lado direito da grande pedra onde os homens e as mulheres eram abatidos, estava uma jovem senhora cujos braços seguravam uma criança.
Ele levou as duas mãos em concha até a face. Horrorizado, considerou que sua visão poderia estar lhe pregando mais uma peça.
Estreitou os olhos e buscou uma posição melhor. Sim, ele via. Como poderia ela não ser atingida pelos tiros que se sucediam a poucos passos de sua figura? Francisco Goya não tinha dúvida quanto àquela aparição: tal qual lhe dizia sua inabalável fé, era a mãe de todos, a Virgem santificada, que, parada ali, em silêncio, velava pelos mortos.
O cintilar da luz da lanterna disposta no chão fazia com que as sombras bailassem antes de caírem imóveis. Os corpos se amontoavam. A formação militar mantinha-se inabalável, cessando, vez ou outra, os disparos para recarregar as armas com munição.
Um dos soldados, aquele que estava mais próximo dele, virou-se, apontando repentinamente o longo cano da arma em sua direção. Goya ficou paralisado, aguardando o fim. No entanto, o soldado não o viu. Retornou à sua posição original, lado a lado com o seu grupo, para continuar a matança.
Francisco afastou-se sorrateiramente. Aquela cena permaneceria em sua memória por longos anos. E, se dele dependesse, não seria jamais esquecida.
Acesso às obras em: https://www.museodelprado.es/





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