Platônico!



Não há amor maior que o platônico. Sim, deveras controversa esta afirmação, mas quem aqui fala é um plantonista profissional. Confesso que a maior parte de meus amores foram platônicos, ou seja, só existiram em minha mente. Mas isso não é de todo ruim, pois sendo platônicos, sempre foram perfeitos e imaculados.

Há uma permanência no platonismo, o amor não se esgota. Desta forma, os anos seguiram e novos amores, também platônicos, ocuparam o seu lugar. Mas isso não implicou no desamor daqueles que um dia se fizeram protagonistas de meus pensamentos, em contrário, sobrevivem todos hoje em minhas mais puras fantasias.

Vale salientar que existe o amor platônico, mas também, a paixão platônica, e mesmo a casualidade platônica. Enquanto o primeiro acaba por inconscientemente nortear as nossas escolhas ao longo da vida, os outros dois são chamas temporárias de uma mente entorpecida.

A paixão fulmina, seja platônica ou não. Faz arder o coração e a imaginação. Nela construímos as mais incríveis fábulas amorosas. Diferentemente da paixão de fato, a platônica pode durar para sempre, pois é continuamente avivada pelo sopro idealizado do plantonista. Por vezes se converte em amor, e como ele, em tenra lembrança.

Já o platonismo casual dura o tempo do gozo. Efêmero como algumas relações que em vida se estabelecem e findam. Não é necessariamente ruim, mas por ser facilmente esquecível, não deixa marcas.

Sou o sujeito oculto desta confissão, mas quero dar cara para um de meus amores platônicos, para que vocês que agora leem o meu relato possa concebê-lo em plenitude. Um dos primeiros de que me lembro chegou na adolescência. História curiosa esta, e cheia do mais verdadeiro amor. Quando começou era paixão, confesso.

Ainda menino costumava pegar um ônibus para ir e voltar do trabalho, por conveniência sempre no mesmo horário. Assim como outros tantos que compartilhavam comigo o saudoso coletivo. E foi neste período que a vi pela primeira vez. Uma garota de pele alva, cujos cabelos lisos escorriam-lhe pelas costas, um sorriso largo emoldurado por um inigualável batom vermelho, um olhar de tom profundo que sorria em enlace sem escapatória.

Nossos olhos se encontravam, seja pelo reflexo da vidraça, seja em descuidadas observações diretas. Me vi apaixonado, preso ao seu perfume, que ainda hoje a traz até mim. Parti para a ofensiva. Mas não pense aqui que optei pela maneira tradicionalmente utilizada para estes casos. Talvez um “oi, tudo bem?” serviria melhor a causa, mas carregado da complexidade com que fui constituído, segui por um caminho longo, duradouro e sem final. Contarei agora para vocês em síntese como isso se deu.

Não sabia nada sobre a linda garota que fez com que eu me apaixonasse, e não tinha a coragem mínima necessária para uma abordagem direta, deste modo, me coloquei em elucubrada investigação. Lembremos que naquela época não dispúnhamos de redes sociais digitais, deste modo, todo o processo teria que se dar ao modo antigo, analogicamente.

Minha súbita paixão não era necessariamente um segredo, a não ser para ela, a moça do ônibus. Eu precisava de aliados neste processo, e assim, partilhava os meus mais tenros sentimentos com uma infinidade de amigos e amigas. Uma delas me auxiliou na invasão, situação que descreverei um pouco mais adiante.

Apesar de ela, a dona dos meus sentimentos, já estar no ônibus quando eu entrava, e descer depois do meu ponto de descida usual. Fiz uso de uma simples estratégia afim de descobrir precisamente o destino inicial e final da doce amada. Assim, pela manhã, todos os dias recuava uma parada de ônibus, na busca de identificar o local exato onde ela embarcava. Tal estratégia acabou por me levar até o ponto inicial da linha. Já descobrir onde descia foi mais fácil, bastou eu permanecer no ônibus além da minha parada, e assim observa o seu desembarque e direção.

Este exercício me trouxe uma valiosa informação, descobri onde ela estudava. Voltemos agora a minha cumplice citada prematuramente acima. Esta minha amiga também estudava no mesmo colégio, e assim compartilhou comigo, após cansativa insistência, o fluxo operacional da entrada dos alunos na escola. Uma descrição detalhada feita por mim permitiu que ela rapidamente identificasse o alvo da minha paixão desvairada. Sim, ela estudava lá. Agora precisaria colocar em prática a próxima fase do meu pouco elaborado plano.

O acesso à escola, na ocasião, se dava mediante a apresentação e retenção da carteirinha estudantil, desta forma eu não conseguiria passar pelo portão sem ser notado. Mas minha infância na rua e minha passagem pelo grupo escoteiro me preparou para este momento, a escalada do muro da escola. Já dentro do território de combate me esgueirei por entre as arvores rumo ao pátio. Meu objetivo. A sala das carteirinhas escolares, onde conseguiria enfim o acesso aos preciosos dados ali contidos. Ou seja, o seu nome, a sua idade, o seu endereço e o seu valioso número do telefone.

A cabeça do plantonista funciona como um filme B. As coisas não se encaixam direito ao longo da trama, muitas vezes menos ainda em seu final. Mas não me dava conta disso naquele momento, apenas precisava completar aquela fase do plano, depois pensaria em que fazer com isso.

Minha cumplice ficou encarregada de retirar da sala a inspetora de alunos, permitindo que eu pudesse entrar sem ser notado. E assim foi feito. Logo que notei o seu distanciamento subi pelas escadas, entrei na pequena sala, busquei na estante de madeira o nicho onde as carteirinhas escolares da sala dela ficavam, vasculhei uma a uma em busca de seu rosto impresso no retrato, por fim encontrei. Anotei rapidamente as informações que buscava, guardei tudo em seu devido local e me retirei dali, voltando a pular o muro em direção a liberdade da rua.

Lembro-me como hoje desse momento de extrema alegria. Ela agora tinha um nome, o qual nunca mais esqueceria. Confesso que ainda hoje sei de cor todos os dados ali coletados. Todos!

Descobri mais tarde que a palavra “cor” em latim refere-se a coração, ou seja, saber de cor é saber de coração. Muito apropriado.

No final de semana seguinte liguei pela primeira vez. Ela atendeu o telefone, eu não disse nada, apenas me deliciei com o seu “alô, alô” impaciente do outro lado da linha.

Estas ligações se sucederam. Sempre em franco silencio. Um dia conversei, sem me identificar. Marcamos de se ver, mas sem eu aparecer, pelo menos para ela, pois sempre estive lá. Confesso que lendo isto agora me soa um pouco assustador, mas nunca fui uma ameaça, me fazia em proteção.

Descobri com o tempo a balada que frequentava, e naturalmente passei também a frequentar. Nunca, no entanto, falamos um com o outro. Por vezes sofria em vê-la beijar outras bocas, segurar outras mãos, se recostar em outros corpos. Mas ao mesmo tempo ficava extasiado ao vê-la dançando quase que em transe a versão de Aretha Franklin para a música “I say a little prayer”. O acaso se manifesta aos olhos atentos, quantas pequenas orações eu mesmo fiz para aquela bela moça.

Durante um bom tempo me perdia pelos caminhos do mundo atrás de sua trilha. Quando, por exemplo, descobri onde ela trabalhava, me deslocava alguns quilômetros todos os dias para ir àquela agencia bancaria, onde da fila buscava ao longe o seu sorriso inigualável, e quando o encontrava, tudo havia valido a pena.

O nosso não relacionamento durou muito tempo, de certo ainda vive dentro mim como histórias não vividas, mas por mim experenciadas.

E assim o tampo correu, crescemos, distanciamos os nossos caminhos, efetivamos por fim o nosso desencontro. Mesmo a vida, de cada um de nós, tendo pondo em prática os seus mais nobres planos, aquele amor ficou. Platônico, mas para sempre, real.

Revogo minha afirmação inicial, há amores maiores que os platônicos, mas isso não torna estes menos inesquecíveis.

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