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Possessão!

2 de set. de 2021
5 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.

O dia se mostrava claro após a lamuriosa tempestade da noite anterior. Ela se observava pelo reflexo nublado da vidraça que dava para o quintal da frente. O muro baixo deixava ver a rua ainda vazia. Na mão direita, a velha xícara, herança de sua falecida mãe, amornava-lhe os dedos ao mesmo tempo que continha o café recém-coado. Seu rosto, desgastado pela noite insone, contrastava com o brilho que fugia de seus olhos marejados. Seus pensamentos esvaíam-se sem germinar, seguiam calados para além do muro, desprovidos de mensagem, de lamento ou de murmúrio. Apenas o desapego na criação de novas memórias e, de igual maneira, no reviver daquelas passadas. Ela preferia ser leve, mesmo acometida por demasiado peso.

O vento assobiava por entre as telhas, despertando-a para a manhã. Um giro do corpo permitiu-lhe flertar com o lar desabitado. Não escolhera a solidão; ela lhe fora dada como premiação por outras escolhas. Viver seria sempre um risco, mas ainda era melhor do que morrer. Depositou a xícara ainda fumegante sobre o aparador.

Caminhou lentamente rumo aos fundos. Uma porta entreaberta permitia-lhe a passagem para o cômodo de dormir. A pouca luz que adentrava pelas frestas mostrava-se suficiente para o olhar. Abriu a porta esquerda do velho guarda-roupa e vasculhou os tecidos dependurados em busca de uma opção. Deteve-se no vestido vermelho, velho companheiro das noites vividas. Acariciou o pano desgastado pelo tempo. Atreveu-se a prová-lo. Seu corpo pouco lembrava o de outrora. As curvas haviam se multiplicado na horizontal. Agora distante da mulher esguia que dançava em vários braços, ela se via outra.

Desceu as mãos pelo corpo, serpenteando na tentativa de modelá-lo. Sentiu-se feliz. Talvez não muito, mas o suficiente para o agora.

Sentou-se sobre a cama ainda desarrumada. Permaneceria assim. Apanhou a sandália dourada de strass e calçou-a. Levantou-se, testando o equilíbrio. Suas panturrilhas quase imediatamente adquiriram uma forma mais acentuada e elegante. Ela levou as mãos à cabeça, enfiando e agitando os dedos por entre os cabelos. Deslizou novamente as mãos pelo dorso. Viu-se satisfeita.

Virou-se e caminhou de volta até a sala. Apanhou a xícara com o café e sorveu mais um gole. Já não estava quente, mas proporcionava conforto suficiente ao corpo permanentemente frio. Um rápido olhar para o relógio lento, dependurado na parede, informou-lhe que havia chegado a hora.

Ela abriu a porta e olhou uma última vez para o espaço que a abrigara ao longo dos últimos anos. Não haveria de retornar. Bateu a porta atrás de si, sem se preocupar em trancá-la. Desceu os três degraus que a separavam da pequena trilha de cimento envelhecido que a conduzia até a calçada.

O ar gelado da manhã adentrou-lhe as narinas com um cheiro fresco de eucalipto. Resultado da essência emanada pelas altas árvores que ladeavam os fundos das casas. Sob o céu azul, as copas bailavam com o vento insistente. Ela esboçou um sorriso. Virou-se mais uma vez e observou a fachada, enegrecida pelo tempo, da casa que habitara.

Seguiu cambaleante rua abaixo, tal qual as folhas verdes que farfalhavam nos galhos superiores. Estava decidida. Não havia por que se acovardar. O dia chegara e, com ele, o ato final.

Estranhamente deserta, a rua se estendia à sua frente. O caminhar sem pressa permitia-lhe olhar atentamente para tudo aquilo de que estivera ausente. Não se lembrava da vizinhança. Nunca se apercebera da pueril decoração dos jardins. Anões e suas Brancas de Neve mesclavam-se à relva aparada. As únicas testemunhas de sua inesperada partida.

A parada de ônibus não ficava distante. Apenas duas ruas abaixo de onde estava. Caminhou decidida, mas sem euforia. Mentalizava o ato, esboçava os trejeitos, murmurava em voz baixa a sua fala.

Avistou ao longe uma senhora sentada, aguardando o ônibus. Conforme se aproximava, a forma se tornava mais distinta. A velha trajava um conjunto preto. Resultado de um luto perpétuo, imaginou ela. Os cabelos brancos, presos sem destreza no alto da cabeça, deixavam escapar os fios revoltosos. A face enrugada, os olhos caídos, o sorriso inexistente. Seriam as bruxas tristes? As mãos trêmulas da mulher indicavam frio. Ou seria o mal de Parkinson?

Aproximou-se e deteve-se um pouco à frente. A velha não lhe dirigiu a atenção. Permanecia inerte, observando algo distante, coisas que somente ela podia ver.

Ambas permaneceram no silêncio da manhã, sem se notarem. De súbito, um ônibus apareceu no final da rua, após uma curva acentuada. Ela avançou e esticou o braço, sinalizando ao motorista que gostaria de embarcar. O veículo parou à sua frente, e ela subiu, não sem antes observar mais uma vez a velha senhora que permanecia inerte no banco da parada. O motorista deu a partida, e ela observou a silhueta negra desaparecer ao longe.

Sentou-se ao fundo, observando pela vidraça a paisagem urbana.

“Vazios habitados”, pensou.

A viagem seguiu sacolejante até o centro da cidade. Ela desceu em frente a um prédio azul de arquitetura neoclássica, já desgastado pelo tempo e pela falta de manutenção. Identificava-se com o pequeno edifício: tal qual ela própria, ele já havia brilhado. Hoje, servia de morada aos ratos, que permitiam que muitas pessoas também vivessem por lá.

Ela caminhou rumo a uma rua estreita. Seguiu pela via até o final, virando à direita em uma larga avenida. Mais alguns passos, e chegaria ao seu destino: um grande salão cuja fachada era adornada por duas colunas alvas. A imponente porta de madeira envernizada estava aberta. Ela adentrou o espaço e seguiu pelo corredor central, buscando o local anteriormente acertado. Sentou-se e observou.

Por cerca de uma hora, permaneceu ali imóvel e calada. Durante aquele tempo, o espaço se enchera de outras pessoas. Homens, mulheres e crianças. Todos em um eufórico transe. As falas se somavam em um turbilhão. À frente, sobre o palco elevado, ele proferiu a palavra-chave e, em seguida, apontou para ela.

Ela se levantou. A cabeça levemente curvada para a frente. Caminhou mexendo os ombros e proferindo palavras ininteligíveis. A voz assumiu um tom mais grave, fazendo com que sua garganta coçasse. Ela tossiu e cuspiu no chão lustroso. Fitou os olhos dele sem se abater.

Subiu ao palco e o confrontou. Ele proferia palavras ao microfone enquanto lhe tocava a cabeça com a mão direita. Ambos entraram em uma discussão sincronizada. A plateia se alvoroçou. Gritaram palavras de ordem. Expurgaram os próprios demônios. Ela agitou o corpo como se tentasse se livrar de amarras invisíveis. Permaneceu curvada. Os cabelos caíram pela lateral, ocultando parcialmente a sua face. Seus olhos giraram. Sua boca franziu. Seus dedos se contraíram.

De súbito, ela caiu. Deitou-se no piso acarpetado. Abriu os braços e as pernas, formando com o corpo uma grande estrela vermelha. Ele se debruçou sobre ela. Continuou em sua fala incansável. A luta entre o bem e o mal.

Ela permaneceu imóvel. Alguns segundos se seguiram, sem que soubesse precisar quantos. Seu semblante se transformou. Ela sorriu com leveza. O homem lhe estendeu a mão. Ela se levantou e girou sobre o próprio corpo. Estava leve. Liberta.

De súbito, seu olhar se deteve em um semblante conhecido. Sentada no meio da multidão estava a velha que vira na parada de ônibus. Seu corpo gelou. O alvoroço da multidão, no entanto, fez com que a perdesse de vista. Não a encontrou mais.

Permaneceu no palco até o final do evento. Alguns dos presentes insistiram em abraçá-la. Todos comemoraram o feito. A catarse fora coletiva.

Ela voltou ao lugar onde estivera sentada anteriormente. Quando o espaço se esvaziou, apenas algumas poucas almas permaneceram no recinto. Ele seguiu pela direita, adentrando uma porta localizada ao fundo. Ela o acompanhou por um corredor e subiu um lance de escadas. Uma grande e pesada porta de madeira adornada separava o corredor da sala onde ele estaria. Ela entrou sem bater. Ambos se olharam. Os brilhos nos olhos foram compartilhados. Ela se aproximou. Ele levantou as mãos, segurando-a pelos ombros.

— Parabéns! Você foi incrível — disse ele, com um sorriso no rosto.

Entregou-lhe um envelope branco, sem marcações, cujo volume indicava o conteúdo.

— Eis o de hoje. Desça, pois eles estão esperando por você. Há um país para visitar. Muito dinheiro a ganhar. Você é o nosso melhor demônio.

 
 
 

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