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Pão!

18 de nov. de 2021
4 min de leitura

Atualizado: 27 de ago.



Pedro Paulo permanecia sentado no primeiro degrau da pequena escada que dava acesso àquela casa rosada. A rua estava deserta; os poucos movimentos que se podiam notar eram os das bandeirolas de plástico nos postes, provavelmente restos de pipas entrelaçadas nos fios de alta tensão. Crianças deviam sorrir por ali.

Pedro olhou novamente para o relógio que usava no pulso esquerdo e conferiu o horário sem se mover da posição que ocupava, um pouco pelo frio que se fazia presente por meio do vento insistente, um pouco pelo nervosismo, um pouco por se sentir incapaz.

De onde estava, nada conseguia ouvir. Não sabia o que se passava dentro da casa. Maísa já estava lá havia quase uma hora. Mesmo com o corpo gelado pelo frio, o suor escorria por sua face cansada.

Ele acendeu mais um cigarro com as mãos trêmulas, aspirando profundamente a fumaça e soltando-a, em seguida, em uma longa baforada. Olhou novamente para o relógio. Apenas um minuto havia se passado desde a última vez em que o observara. A angústia apoderava-se de seu coração acelerado.

Estar naquela situação era quase insuportável para ele, mas não havia outra solução imediata para o seu problema. Mesmo se sentindo um fraco desprezível, estava feliz. Conseguiria por mais um dia.

Um carro cruzou a rua com o rádio em volume alto. Provavelmente, eram jovens voltando de mais uma noite de folia. Pedro ouviu algumas das palavras vindas da canção, algo como: “...o amor importa, mas é você que depende de mim...”. Repetindo-as em voz baixa, viu-se no fragmento da frase cantada. Projetou a sua vida, a sua situação atual, avaliou as suas culpas e os seus medos.

“O amor importa. Importa, como importa”, repetiu para si antes de dar outro trago em seu cigarro parcialmente consumido. “Mas você é quem depende de mim? Depende de mim! De mim e de nós.”

Seu olhar tornou-se úmido. O tempo pareceu parar. Não ouvia mais som algum que pudesse denunciar a sua vã realidade. O vento estancou, o ar pareceu tornar-se sólido e seu corpo pesava mais do que o normal. Pedro Paulo sentiu o sangue pulsar em suas veias e olhou mais uma vez, com os olhos baixos, para o relógio em seu punho, como se quisesse adiantar os ponteiros que, em sonolentos movimentos, custavam a avançar pelo mostrador amarelado.

Procurou uma causa, razões que pudessem explicar os motivos de sua penúria. Por que estava passando por tal provação? Seus pensamentos conflitavam com seus poucos ideais. A razão e a emoção se entrelaçavam em sua mente. Estava arrependido, mas já era tarde demais para isso.

A impotência apoderava-se de seu eu. Pedro não se sentia mais digno de viver. Um peso morto neste mundo torto. Talvez aquele fosse o castigo por ter sido tão incompetente, por não ter conseguido parar em emprego algum, por ter se rendido ao vício, por não ter podido manter a sua família, por lhe ser sempre dificultosa a tarefa diária de obter o pão de cada dia.

Ele se deixou levar por pensamentos desconexos. Quando voltou à realidade, dez minutos já haviam se passado do horário anteriormente combinado. Pedro levantou-se, em um único movimento, do degrau onde havia pouco estivera sentado e se posicionou recostado ao muro que ladeava o portão principal da casa rosada. Ao longe, ouviu um bater de portas e passos pouco apressados.

Maísa caminhava lentamente, sua sombra altiva abrindo-lhe caminho e conduzindo-a até o portão.

Eles se entreolharam, mas preferiram se manter calados. Não haveria nada a ser compartilhado. Não agora. Não hoje. Os segundos seguintes pareceram séculos, durante os quais os dois permaneceram parados no silêncio daquela noite virginal. O silêncio dizia muito. O farfalhar das bandeirolas complementava o fato consumado.

Eles seguiram lado a lado pela rua parcialmente iluminada. O vento fazia com que os cabelos de Maísa flutuassem para o lado. Ambos, com os olhos fixos no horizonte, caminhavam de volta ao lar.

Maísa interrompeu subitamente o silêncio:

— Duzentos reais.

Pedro escutou a voz da esposa, mas continuou sem olhar para ela. Odiava aquele dinheiro, mas, ao mesmo tempo, necessitava dele. O dia já estava amanhecendo. Entraram em uma padaria que acabava de abrir, com as mãos entrelaçadas.

— Pão e leite — pediu Maísa ao padeiro, que, prestativo, embalou os produtos com um largo sorriso.

Eles recolheram os produtos, pagaram e saíram.

Já próximos de casa, Maísa se deteve e disse ao marido, com severa docilidade:

— Pedro, tenha calma. Isso será somente enquanto você não conseguir um emprego fixo. Um esforço necessário, meu e seu.

Mais uma vez, uma lágrima escapou, umedecendo o caminho percorrido ao longo de sua face. Maísa passou a mão pelo rosto do marido, enxugando a lágrima e reconfortando-o.

— Pare agora. Tudo vai ficar bem — disse ela, com autoridade.

Mais alguns passos, e eles pararam diante do portão de casa, onde se olharam novamente em franca cumplicidade. Entraram. Pedro colocou os pacotes sobre a mesa e, junto de Maísa, dirigiu-se ao pequeno quarto à esquerda da cozinha. Pararam sob o batente sem porta e observaram as duas crianças que ali dormiam, alheias aos problemas dos adultos.

O mesmo pensamento passou pela cabeça de Pedro e de Maísa:

“Mais um dia vocês terão o que comer, meus filhos.”

 
 
 

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