Pão!



Pedro Paulo permanecia sentado no primeiro degrau da pequena escada que dava acesso àquela casa rosada. A rua estava deserta, os poucos movimentos que se podiam notar eram os das bandeirolas de plástico nos postes. Provavelmente restos de pipas entrelaçadas entre os fios de alta tensão. Crianças deviam sorriam por ali.

Pedro olha novamente para o relógio que usava no pulso esquerdo, confere o horário sem mover-se da posição que ocupava, um pouco pelo frio que se fazia presente através do vento insistente, um pouco pelo nervosismo, um pouco por se sentir um incapaz.

De onde estava nada conseguia ouvir, não sabia o que se passava dentro da casa, Maísa já estava lá há quase uma hora, mesmo com o corpo gelado pelo frio o suor escorria pela sua face cansada.

Ele acende mais um cigarro com as mãos tremulas, aspirando profundamente a fumaça e soltando em seguida em uma longa baforada. Olha novamente para o relógio. Apenas um minuto havia se passado desde a última vez que o observou. A angústia se apoderava de seu coração acelerado.

Estar naquela situação era quase insuportável para ele, mas não havia outra solução imediata para o seu problema, e mesmo se sentido um fraco desprezível, ele estava feliz. Conseguiria por mais um dia.

Um carro cruza a rua com o rádio em volume alto, provavelmente jovens voltando de mais uma noite de folia. Pedro ouve algumas das palavras vindas da canção, algo como “...o amor importa, mas é você que depende de mim...”. Repetindo em voz baixa ele se vê no fragmento de frase cantada. Projeta a sua vida, a sua atual situação, avalia as suas culpas e os seus medos. O amor importa. Importa, como importa, repete ele para si mesmo antes de dar um outro trago em seu cigarro parcialmente consumido. Mas você é quem depende de mim? Depende de mim! De mim e nós.

Seu olhar torna-se úmido, o tempo parece parar, não ouve mais som algum que pudesse denunciar a sua vã realidade. O vento estanca e o ar parece torna-se sólido, seu corpo pesava mais do que o normal. Pedro Paulo sente o sangue pulsar em suas veias, olha mais uma vez com os olhos baixos para o relógio em seu punho como que quisesse adiantar os ponteiros que em sonolentos movimentos custavam a avançar pelo mostrador amarelado.

procura por uma causa, razões que pudesse pudesse explicar os motivos de sua penúria. Porque ele estava passando por tal provação? Seus pensamentos conflitavam com os seus poucos ideais. A razão e a emoção se entrelaçavam em sua mente, ele estava arrependido, mas já era tarde demais para isso.

A impotência apoderava-se de seu eu. Pedro não se sentia mais digno do viver. Um peso morto neste mundo torto. Talvez este fosse o castigo por ele ter sido tão incompetente, por não ter conseguido parar em emprego algum, por ter se rendido ao vício, por não ter podido manter a sua família, por ser sempre dificultosa a tarefa diária de obter o pão de cada dia.

Ele deixa-se em pensamentos desconexos, quando volta a realidade, dez minutos já haviam se passado do horário anteriormente combinado. Pedro se levanta em um único movimento do degrau onde a pouco estava sentado, e se posiciona recostado ao muro que ladeava o portão principal da casa rosada. Ao longe ouve um bater de portas e passos pouco apresados.

Maísa caminhava lentamente, sua sombra altiva abrindo o seu caminho, a conduzindo pelo caminho que levava ao portão.

Eles se entreolham, mas preferem se manter calados. Não haveria nada a ser compartilhado, não agora, não hoje. Os segundos seguintes pareciam séculos, onde os dois permaneciam parados no silencio daquela noite virginal. O silêncio dizia muito. O farfalhar das bandeirolas complementava o fato consumado.

Eles seguiram lado a lado pela rua parcialmente iluminada. O vendo fazia com que os cabelos de Maísa flutuassem para o lado. Os dois com olhos fixos no horizonte caminhavam de volta ao seu lar.

Maísa interrompe de súbito o silêncio. Duzentos reais. Pedro escuta a voz da esposa, mas se mantem sem a observar. Ele odiava aquele dinheiro, mas ao mesmo tempo necessitava dele. O dia já estava amanhecendo, entram em uma padaria que acabava de abrir com as mãos entrelaçadas. Pão e leite. Pede Maísa ao padeiro, o qual prestativamente os embala em sorrisos largos.

Eles recolhem os produtos, pagam e saem.

Já próximos de sua casa Maísa se detém e diz a marido com severa docilidade.

- Pedro, tenha calma. Isso será somente enquanto você não consegue um emprego fixo. Um esforço necessário, meu e seu.

Mais uma vez uma lágrima escapa umedecendo o caminho percorrido ao longo de sua face. Maísa passa a mão pelo rosto do marido enxugando e reconfortando o seu semblante.

- Pare agora, tudo vai ficar bem. Diz ela com autoridade.

Mais alguns passos e eles param em frente ao portão de sua casa onde se olham mais uma vez em franca cumplicidade. Entram. Pedro coloca os pacotes por sobre a mesa e junto a Maísa se dirige ao pequeno quarto à esquerda da cozinha. Param sob o batente sem porta e observam as duas crianças que ali dormem alheias aos problemas dos adultos.

O mesmo pensamento passa pela cabeça de Pedro e de Maísa. Mais um dia vocês terão o que comer meus filhos.


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Sou um amigo de poucos amigos. Digo daqueles especiais de fato. Pelo menos é o que permite a minha visão deficiente de longínquos horizontes. Não significa que eu não seja popular e bem-quisto por ond