Inclusão Digital!
Atualizado: 27 de ago.
Fui um homem que, na lida, fez de tudo um pouco. Parede, concreto e cimento. Tomei choque em fio desencapado e banho em cano furado. Fiz jardim tal qual paisagem, subi muro e enchi laje. Também ajudei gente carregando carrinho na feira e até passeei com cães e recolhi suas fezes, que fertilizavam o gramado alheio. Aprendi desde cedo que ser um seria pouco. Por isso, empenhava-me em ser muitos, mesmo que, por vezes, parecesse de fato não ser ninguém.
O mundo não está preparado para reconhecer o feitio do pobre. Decerto, os modelos de vida bem-sucedida fazem coisas que eu mesmo nunca fiz. Sei pouco de contas e escrevo o necessário. Na busca constante por um parco salário, tive de viver a vida muito cedo, somente pelo trabalho.
Benedito, velho sábio lá da obra, certa vez me procurou. Dizia ele com conhecimento de causa:
— Vai ser alguém nesta vida, por favor! O tempo há de passar e, quando menos esperar, ele já se foi.
Eu dizia, em minha pouca maturidade, que amanhã seria o dia da oportunidade. Mas o amanhã estava sempre ao longe e, assim, eu seguia humilde, guiado pela honestidade ensinada por minha mãe, trilhando meus poucos sonhos pelos caminhos lesos que se apresentavam ao amanhecer de cada nova ocasião.
Enfim, o tempo passou ligeiro, tal qual anunciara o velho Benedito. Um dia me vi moço; no outro, um homem adulto; em seguida, adentrei prematuramente a infância da velhice. Olhar para trás apenas angustiava o pouco que ainda haveria de vir. Assim, não caía em remorso pelo não feito. Deixava-me enveredar pela vida tal qual a conhecera na juventude.
Quando acordava cedo, saía sem relutar, na certeza de poder, ao final de mais um dia, voltar para casa e trazer nos braços um saco de farinha, feijão, macarrão e arroz. Se desse, também traria um bocado de carne — de boi, porco ou galinha, tanto fazia. O importante era aquilo que se tinha, não aquilo que se queria, pois sou sabedor do esforço necessário à sua realização.
Nunca passei fome, aquela que machuca o estômago vazio, mas me privei de provar algumas coisas que via. Digo, porém, com lucidez: falta não me fazia. Afinal, aquilo que não conheço não haveria de me trazer penúria. Para mim, apenas não existia.
O que se passa agora é a impossibilidade de buscar o pouco. Meu patrão me mandou embora, e os bicos hoje em dia são raros. Mas sigo na fé e na perseverança de que alguém, em sua bondade, possa amparar esta alma trabalhadeira.
Certa vez, fui até a cidade. Estavam coletando dados lá na associação. Uma senhora de cabelos bem cuidados, óculos ancorados na ponta do nariz, boca cor de jaca madura e cílios elevados me pediu informações para colocar no papel, que dizia ser necessário para uma eventual contratação. Ela dizia que chamavam aquilo de currículo. Nome estranho para um emprego. Já tinha ouvido falar, mas nunca parara para pensar naquilo de fato. Eu nunca fugi do trabalho e, assim, resolvi encarar aquele novo desafio.
— Na vida, fiz de tudo, senhora, mas não me leve a mal: no papel, não tenho o que colocar. Minha intimidade com essa folha é pouca, e não foi por escolha errada ou descaso. Apenas não deu tempo de ganhar o pão e estudar.
— Veja bem, estimada senhora, coloque aí que sei fazer massa, emendar fio, vedar cano, assentar tijolo, carpir terreno. Alguém ainda precisa desse tipo de serviço hoje em dia, dona? Sei que os meninos lá do bairro, que chegam da escola, mal conseguem oportunidade. Não sei bem de estudo, isso é verdade, mas posso me esforçar, se assim for necessário. Veja minhas mãos calejadas. Foi aqui que, em verdade, a vida escreveu a minha lição.
Ela me olhou brevemente por cima dos óculos, voltando em seguida a atenção para a tela, onde lia e escrevia.
— João de quê? Data de nascimento? Endereço? Filiação? RG e CPF? Estado civil? Profissão? Já foi preso, João?
A senhora seguia batendo os dedos sobre as teclas enquanto, com certa dificuldade, eu respondia às perguntas que ela me fazia. Confesso aqui, entre nós, que sentido aquilo tudo não trazia. Afinal, quem leria tal história? Pouco interesse eu deveria despertar, pois sou um personagem um tanto simplório, sem muita coisa a acrescentar. Não entendo de livros, mas sei contar causos e, no meu caso, não haveria tantos que pudessem ilustrar o que fui — em verdade, nem o que sou. Fiquei pensativo por alguns instantes.
Não expressei tais pensamentos a ela. Seguia ali respondendo diante da promessa de uma recolocação. Afinal, emprego bom se arruma assim, ela dizia.
— Hoje em dia, só fazendo um currículo que seja, de fato, carregado de boas informações. Ouviu, seu João? — dizia, rindo simpaticamente enquanto falava sem me observar.
De súbito, a senhora se levantou e caminhou até o lado oposto da sala. Voltou minutos depois com um punhado de folhas na mão.
— Assine aqui — disse, apontando para uma linha tracejada no final da página.
Eu, meio acanhado, atrevi-me a rabiscar.
— Muito bem, senhor João, tudo pronto — disse ela com entusiasmo.
Perguntei com um sorriso incontido:
— Que maravilha! Muito obrigado. Quando posso começar, dona?
Ela novamente me encarou por cima dos óculos e decretou:
— O senhor precisa aguardar. Acesse o site com frequência para verificar o andamento e conferir se há oportunidades que se encaixem em seu perfil. Enviaremos uma mensagem pelo WhatsApp se surgir algo mais urgente.
Levantei-me da cadeira e me virei para sair, mas, antes, arrisquei uma última e necessária pergunta:
— Dona, o que é esse tal de “seite” e “waltzap”?
A senhora mudou o semblante e me olhou com certo desdém. Ajustou, pela primeira vez, os óculos sobre a volumosa e rubra face e disse, incisiva:
— Inclusão digital, senhor João. Inclusão.
Sem acrescentar mais nada, ela se virou para a tela iluminada e chamou outra senha.
Saí dali sem saber o que fazer. Guardava no peito a esperança de ver atendidas as minhas preces. Haveria o Senhor de me indicar o caminho para a tal inclusão. Naquele dia, caminhei de volta para casa: ou pagava o ônibus, ou comprava o pão. Durante o caminho, pensava enquanto observava as pessoas que, alheias a mim, circulavam pelas ruas.
Antigamente, o trabalho se dava no papo honesto entre o empregado e seu patrão. Hoje em dia, eles me exigem essa tal de inclusão. E quem não tem recurso para comprar um troço desses, como é que faz? Aproveitei as horas de caminhada para procurar pistas pelos lugares por onde passava, sem que nada, no entanto, se desanuviasse.
Quando enfim cheguei à venda, perguntei ao padeiro se ele sabia como fazer. O dito soltou uma gargalhada e seguiu com a piada, sem que eu pudesse entendê-la. Em casa, fui me consultar com Maria, mãe de meus meninos. Ela disse que a piada era este país querer digitalizar tudo. Para a maioria dos que aqui vivem, falta o recurso mínimo, mas, para eles, os donos do serviço, todo mundo precisa fazer curso para poder trabalhar.
Perguntei-lhe onde ouvira tal sabedoria. Respondeu que fora na novela que passava todos os dias, dando-me as costas para voltar a requentar o jantar.
Bom... Fiquei intrigado, olhando para a televisão ainda desligada. Sempre achei novela algo sem nenhuma outra função além de distrair, mas parece que não. Maria aprendera por ali. Devo assistir aos capítulos também. Quem sabe, assim, eu consiga enfim obter o emprego pela tal da inclusão e, se não, pelo menos aprenda um pouco mais sobre o mundo lá fora, que já me parece estranho e um tanto sem noção.
Olhei pela janela e busquei uma estrela no céu escuro. Agradeci pela luz concedida por Aquele que tudo sabe.
— Obrigado, Deus. Que eu seja abençoado pela graça do “seite”, na glória do “waltzap” e na necessária e desejada inclusão. Amém!





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