Assédio!



Lá estava ele naquela manhã de segunda-feira, mais uma semana se iniciaria. Havia alcançado o cargo de chefia por meios pouco ortodoxos, mas isso não importava, afinal mandava quem podia e obedecia que tinha juízo. Mantra que gostava de repetir aos seus comandados.

Não se perdia em escrúpulos, afinal do alto de seu poder por hora ocupado sentia-se um semideus, estava onde merecia estar.

Pega com firmeza o fone do telefone que descansava por sobre a base. Aperta o botão que automaticamente o liga a sua secretaria. Flávia, encontre o Wladimir e o mande subir à minha sala imediatamente, e me traga um café. Diz ele em tom austero.

Volta o fone a sua base e recosta-se em sua cadeira. Ansiava pela demonstração de poder que teria em breve. Deixa escapar um sorriso o que faz com que sua feição se abrande um pouco.

Volta-se a tela de seu computador onde passa os olhos pelas notícias do dia. Abre a sua caixa de e-mails onde algumas mensagens se enfileiram esperando por sua resposta. Que esperem, pensa ele. Olha para o relógio reluzente em seu punho esquerdo. Inquieta-se. Volta ao telefone. Flávia onde está a porra do Wladimir? Diga para este imprestável subir agora. Sim senhor, responde ela com a voz tremula e reticente.

Ele volta a se reclinar em sua cadeira colocando agora os pés cruzados por sobre o tampo da mesa. Cruza as mãos por sobre o abdômen e esfrega os polegares em explícita ansiedade.

Poucos minutos depois o seu telefone toca. Flavia informa que Wladimir já havia chego. Ele, antes mesmo de ela terminar a frase, sentencia. Fale para esperar, estou ocupado agora.

Ele adorava o poder, sentia-se extasiado pela força que possuía. Seu cargo fora fruto de seu mérito, e isso fazia dele um exemplo a ser seguido por aqueles que a ele deviam admiração e respeito.

Senta-se novamente em sua cadeira virando mais uma vez para o monitor de seu computador, lê pacientemente o seu horóscopo antes de verificar o resumo semanal da novela. Abre o jogo de cartas e confere sua última pontuação. Haveria de se superar, afinal ele era o campeão. O tempo passa sem que ele se de conta da movimentação dos ponteiros do relógio. Flávia volta a lhe chamar pelo telefone. Ele resolve não atender. Garota irritante, quem ela achava que era para lhe interromper sem autorização. Desdenha da luz piscante que informava as repetitivas tentativas de contato telefônico, continuava em sua partida de cartas rumo ao novo recorde.

Minutos depois alguém bate a porta. Ele se levanta em um único movimento e de modo brusco e contundente abre a porta e antes mesmo que sua interlocutora pudesse se manifestar dispara. Porra, já não falei para esperar. Acha que minha vida é uma sucessão de inutilidades como a de vocês. Esperem! Quando eu puder atender avisarei. Bate a porta dando as costas e voltando a sua cadeira.

Deixa escapar um profundo suspiro antes de bater com as mãos por sobre o tampo da mesa. Inúteis! Postula por fim.

Alguns minutos passam enquanto ele se perde em pensamentos. Pega o telefone novamente. Do outro lado da linha Flavia atende. Ele dispara. Onde esta o meu café? Já faz tempo que eu solicitei. É pedir muito para que tenha eficiência?

Flavia que ouvia do outro lado responde calmamente. Tentei o contato com o senhor pelo ramal, até bati na sua porta a fim de lhe entregar o café.

Ele retruca, traga-o agora e mande esse imprestável do Wladimir entrar. Segundos mais tarde Flavia bate à porta novamente e adentra a sala com a bandeja onde uma única xícara de café ocupava o seu centro. Ela levanta com cuidado a xícara segurando pelo pires e a coloca sobre o tampo da mesa virando-se em seguida para sair quando foi novamente interpelada. Onde está o imbecil do Wladimir?

A jovem vira-se novamente e informa com a voz calma e sem pausas. Wladimir pediu para informar que está cagando para o senhor.

Diga a ele que venha a minha sala assim que sair do banheiro. Diz ele de modo intempestivo.

Não foi bem isso o que ele quis dizer senhor. Responde ela enquanto sai da sala fechando a porta atrás de si.

Ele leva a xícara com o café aos lábios e sorve um generoso gole. Flavia! Grita ele de onde estava. O café está frio.

Do lado de fora da sala ela ri. Não tardaria para as generosas gotas de laxante postas a pouco na bebida cumprirem com o seu papel.

Flavia calmamente se levanta pegando a bolsa que momentos antes jazia dependurada na cadeira. Wladimir a aguardava do lado de fora do prédio, em sua mochila estavam todos os rolos de papel higiênico anteriormente disponíveis no andar.

21 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Foda-se a inocência, a incoerência o medo de ser e fazer por ter. Foda-se o silêncio, a ausência, a indiferença que vem de você. Foda-se suas limitações, seu senso razo, seu disfarce adaptado. Foda-se

Sou um amigo de poucos amigos. Digo daqueles especiais de fato. Pelo menos é o que permite a minha visão deficiente de longínquos horizontes. Não significa que eu não seja popular e bem-quisto por ond