Anti-ilíada

Era um velho cansado. Tivera a oportunidade da vida para fazer valer, no entanto, entregou-se a morte ainda menino. Tinha crescido em bairro humilde, mas isso não o fazia menor. Em contrário permitia-lhe o acesso a habilidades que mais tarde se mostrariam fundamentais a uma leitura precisa do mundo no qual vivia. Já um jovem adulto apaixonou-se pela primeira vez. Moça de traços finos e porte altiva. Ele, um fedelho maltrapilho. Um tanto quanto abusado, arriscou um flerte. Ela, talvez pela súbita surpresa, ou ainda quem sabe pela simples curiosidade de provar o proibido, correspondeu. Dizia-se nas nuvens de um céu ensolarado. Um romance que durou a eternidade do pouco. Faltou a ela a segurança que só o dinheiro conferiria. A ele, a nobreza. Nunca se recuperou do trauma, as feridas curadas preservaram-se em cicatrizes que adornavam a sua pele como um mapa a ser seguido. Talvez por isso, aquilo que não tinha quando a teve, tornou-se propósito. Como se pudesse ele em um futuro distante e improvável, recuperar a sensação que lhe fora negada no entardecer do ontem. Ele trabalhou na construção de um eu que até então não conhecia. O tempo passava na velocidade dos dias. O olhar para trás tornava o horizonte cada vez mais difuso. As memórias já não preservavam os detalhes, apenas manchas que um dia foram repletas de significado, mas no agora mantinham pouca informação. Talvez tenha ele imaginado aquele caso, quem sabe fora apenas uma megalomania temporária. Não fazia mais sentido a dor lacerante, tampouco o desalento, a sensação da impossibilidade, as mãos atadas. Seu reflexo atual trazia em si uma outra imagem. Havia enfim conquistado aquilo que sem saber desejou. O que mesmo? Não saberia precisar. Casou-se, descasou-se, para depois enveredar em matrimônio várias outras vezes. Não encontrava, pois nem sabia o que buscar. A maturidade trouxe-lhe a ciência de que o efêmero é mais frequente que o definitivo. Quando enveredou pelas vias da senilidade lamentou algumas das escolhas. Tarde demais! Concluía ele em definitivo. A moça que desenhou inconscientemente o seu futuro já não possuía a tez uniforme de outrora. Tampouco ele. As rugas profundas subiam-lhe pelas mãos que um dia a acariciou. Marcavam a sua face como cortes não cicatrizados de uma navalha afiada. As vitórias conquistadas já pareciam pouco importantes. O amanhã era sempre sepulcral. Era um velho cansado da busca incessante por aceitação. Quando triunfante viu-se inacabado. Jazia um grão perdido na superfície, cujas voltas do relógio o aproximava do pesar do firmamento. Sabia agora que a turbidez da memória era tal qual sua história.

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