A viúva!

Atualizado: 2 de jun.



A noite já estava alta quando ela chegou trajada com o seu melhor vestido preto. Os presentes não tardaram a perceber a sua chegada, todos, automaticamente cessaram o que faziam para observar o seu altivo caminhar.

Ela não estava receosa, em contrário, caminhava decida pelo ambiente lotado rememorando, sem deixar transparecer, o tempo já passado. De certo seria referência ao que viria.


Aproxima-se do centro do salão, o chão lustroso refletia a sua sinuosa figura, os cabelos anteriormente presos se soltaram parcialmente caindo em mechas pelas laterais de sua face alva. Ela sacode delicadamente a cabeça fazendo com que os fios revoltosos se alinhassem delicadamente emoldurando o seu sóbrio rosto.

Na boca o batom vermelho contrastava com a pele clara refletindo nos seios da face um rosado quase infantil. Os olhos profundos marcados pela sobra e pelo delineador faziam com que suas pupilas saltassem brilhantes. Não sorria, mas parecia que sim.

Os olhares amedrontavam-se naqueles que resolviam encará-la. Ela exalava poder, e isto não era novidade.


Ela adentra mais um pouco o espaço enquanto os presentes saiam de lado abrindo caminho e criando um corredor para que ela percorresse tal qual Moisés havia feito de fronte ao Mar Vermelho. Seus olhos estavam fixos, ela sabia bem qual era o seu destino, assim seguia determinada.

O homem que a aguardava trajava uma camisa branca bem passada sob um colete cinza escuro com alinhadas riscas de tom azulado. Ela o observa interessada e pronúncia um singelo cumprimento.


- Olá, boa noite! Diz ela quase que em sussurro.


O homem a encara e responde educadamente a saudação como sempre fazia.

Ela estica o papel que trazia entre os dedos da mão direita e o deposita por sobre a superfície de madeira maciça e lustrada que os separavam.

O homem olha rapidamente para o pedaço de cartolina e volta o seu olhar para a mulher que o interpelava. Ela desliza o dedo indicador pela folha que estava disposta por sobre a superfície e sinaliza, sem verbalizar.

O homem faz uma pequena marcação no cartão e o desliza novamente ao encontro da mão dela. Vira-se e sai de cena por alguns instantes. Ela olha ao redor e volta a fitar os presentes que gradativamente retornavam a fazer o que faziam antes de sua súbita chegada.

Um sorriso até então contido escapa de seus lábios no momento em que volta a girar o corpo e encarar o homem que já havia retornado.


- Blood Mary senhora. Diz ele sem hesitação.


Ela acena com a cabeça enquanto segura a taça com o líquido vermelho. Entorna delicadamente um pouco da bebida deixando que uma rebelde gota escorra pela lateral esquerda de seus lábios. Ela captura o líquido com o dedo indicador esquerdo e o insere entre os lábios para completar a limpeza improvisada.

Enfim livre! Pensa ela antes de voltar para a pista onde a banda tocava providencialmente "I Want To Break Free".


Mera coincidência ou um sinal carinhoso do universo? Questiona-se em pensamento. Ambos, conclui rapidamente, afinal havia ela ido diretamente do sepultamento de seu agora falecido marido para uma noite que inauguraria uma vida em plena alegria.


God knows, God knows I want to break free” ... Cantava ela enquanto soltava o restante do cabelo.

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