Últimos momentos
Atualizado: 27 de ago.
Gostaria, ainda que morto, de saber quem foi que inventou que defunto gosta de flor. Esse cheiro está me deixando nauseado. É provável que, se não estivesse morto, sofresse na próxima semana com minha enxaqueca costumeira.
Por que não me cercaram de calcinhas? Isso, sim, seria maravilhoso: ficar aqui e apodrecer imerso em parte substancial daquilo que, em vida, fora a saciedade constante de meu desejo carnal. Sim, fui um homem pouco dado às afeições, e isso pouco importa agora. Ao menos, é o que penso aqui, deitado em meio aos lírios. Confesso que tais pensamentos fazem com que eu sinta, em meu corpo gélido, um breve aquecer. Saudades de Aurora, Hortência, Margarida e Violeta, flores que me faltam agora.
E essa choradeira, o que será que representa? Será que fui tão querido assim? Devo confessar que as lágrimas derramadas sobre este que vos fala estão mais para obrigação de uma noite de velório. Seriam elas choradeiras contratadas para acalentar aqueles que, como eu, aqui não sentem nada? Talvez eu nunca saiba.
Não quero parecer ingrato. Acredito, de fato, que muitos dos presentes estejam sentindo alguma rala tristeza pela minha súbita partida. Melhor pouco do que nada, diria Godó, o simpático guardador de carros do meu bairro.
O que me deixa assim, rabugento e pouco afeito ao júbilo tardio, é a materialidade desta minha partida. É desestimulante permanecer aqui parado, deitado em minha repugnância pós-morte, sem sequer poder abrir os olhos, encarar os outros e me expressar. Em vida, tampouco o fiz.
Procuro acompanhar o que se passa pela escassa luz que adentra meu interior através dos pequenos espaços existentes entre meus cílios imbricados.
O som flui claro e alto em meus ouvidos. Sei exatamente quem se aproxima de meu ataúde e distingo a mais sutil lamúria proferida por essas bocas descuidadas:
“Coitado, foi tão jovem.”
“Deus sabe o que faz.”
“Parece que está dormindo.”
“Deve estar junto aos seus agora.”
Há pouco, reconheci a melodia presente na voz de uma antiga namorada. Na verdade, não fora bem um romance formalizado, apenas mais um platonismo dedicado à improvável amada que um dia se abrigou neste coração fraco.
Fui, eu acho, muito apaixonado por essa moça que agora toca minha mão fria. Ela, porém, fora apaixonada por outro. Se ainda vale, nesta minha pós-vida, uma breve reflexão, acredito que foi naquele dia de abandono que comecei a morrer, a cada dia, um pouco.
Ainda me recordo da dor. Hoje, ela me vem, com os olhos marejados, pedir perdão ao já passado. Diz, com clareza — ou safadeza tardia —, que naquela ocasião não tivera opção. E o que dizer agora, senão: “Já era!”? Perdeu, meu bem. E eu também.
Quando estão vivas, as pessoas pensam saber tudo. Aquilo que não sabem, inventam e acabam acreditando que detêm a sabedoria plena. O bom de morrer está no fato de não termos mais compromisso algum com o nada vivo. Somos agora somente o um, um único defunto que, muito provavelmente, terá como companhia em suas últimas horas apenas os vermes que de seu corpo podre irão se alimentar.
Isso me traz certa felicidade: saber que alguma utilidade poderei deixar, em minha partida, para este mundo que ainda abriga este moribundo gozador.
Entrei para a cadeia alimentar desses invertebrados famintos de mim. Percorrerão, por instinto, os meandros deste corpo que agora jaz aqui quase morto, à espera do sepultamento definitivo. Não sei se do fim.
Sempre acreditei que assistiria ao meu velório do alto, flutuando pela sala em uma forma astral, extracorpórea e transcendental. Depois, seguiria rumo ao paraíso, se por lá fosse aceito e bem-quisto, ou, quem sabe, rumaria ao inferno, se fosse deveras merecido. Dizem que, nesta hora, não cabe a nós decidir o próprio destino. Por isso, aguardo passivo, tal qual um menino obediente à sua mãe.
Por enquanto, continuo aqui, frio e duro, acompanhando tudo passivamente. Nada de túnel de luz, escadas celestiais, seres de branco me puxando pelas mãos, tridentes ou chamas. Apenas a fumaça da vela, o murmúrio eterno e o pólen entrando pelo nariz. Será que fui tão mau que nem mesmo o diabo quis me disputar? Deus estaria me aguardando na periferia do céu? Querubins me levariam rumo ao campo do sorriso eterno ou demônios me cozeriam no caldeirão do inferno? Não há como saber. Resta-me esperar pelo julgamento.
Vejam quem chegou agora à beira de minha cama de madeira. Esse safado só me prejudicou durante o tempo em que trabalhamos juntos lá no Imperial. Agora, atreve-se a comparecer ao meu enterro. É nestas horas que eu gostaria de poder mexer ao menos um dedo. Mostraria a ele a minha gratidão pela inesperada visita.
Avaliando bem, é inegável a beleza da rapariga que o acompanha. O rosto me é familiar, mas não consigo recordar de onde a conheço, pelo menos deste ângulo propiciado por meu olhar.
É nessas horas que lamento meu estado de morto, passivo por pura imposição da rigidez cadavérica. Quem sabe não conseguisse atrair os encantos dessa linda donzela e, ao lado dela, viver alguns bons momentos da mais pura perversão? Talvez isso aquietasse o rancor que jaz em meu coração parado.
Confesso que, daqui de onde estou, não consigo observar as possibilidades de fuga, mas sei bem que basta eu me mexer para todo mundo correr. Essa vidinha de morte tem seus encantos.
Preciso controlar meus pensamentos impuros. Vai que eu tenha uma súbita ereção... Que coisa mais constrangedora seria para este parco morto: um raminho de crisântemo subindo em riste, tal qual uma varinha de condão.
Devo controlar essas ideias pouco apropriadas a um defunto recém-morto. Afinal, devo estar sendo avaliado neste exato momento pelo aguerrido tribunal celestial e não pretendo depor contra a minha já pouca sorte morta.
Engraçado. Já faz anos que deixei de fumar e, agora que parti daquela para esta — que, por enquanto, não tem nada de melhor —, estou louco por um trago.
Consigo sentir o cheiro da fumaça entrando pelas minhas narinas. Um aroma familiar, porém muito distante. Devem estar fumando do lado de fora deste velório, pois, aqui por perto, sinto claramente o aroma repugnante do incensário.
Um amigo acabou de colocar a bandeira de meu time sobre minhas pernas. O último cobertor de um corpo imerso no frio do rebaixamento. Fui fanático por futebol e, agora, o que me importa se meu time ganha ou perde, se quem perde no final, invariavelmente, somos nós mesmos?
É! Essa situação de defunto serve mesmo para a meditação, para uma autoanálise de tudo o que fiz ou deixei de fazer. Arrependo-me de ter negligenciado tantas coisas, ora entregando ao acaso aquilo que requeria planejamento, ora programando o que deveria fazer parte da imprevisibilidade. Erros de vida!
Agora, aqui caído, vem-me à mente que não fui pai. Sempre sonhei em ter filhos, mas, quando encontrava a mãe ideal, ela, por algum motivo, ou não comungava comigo quanto à ideia dos rebentos ou, pior que isso, preferia tê-los com outra pessoa. Hoje, deixo este mundo sem, de fato, deixar nada.
Bem, parece ter chegado a hora. Agora, só me resta torcer por uma reencarnação e, se isso acontecer, prometo a mim mesmo viver uma nova vida com um pé na festa e o outro na moderação.
Terei uma dúzia de filhos. Ou, pensando melhor, acho que não. Se em dias como os de hoje as coisas já são difíceis, o que dizer em uma improvável reencarnação?
Nunca pensei que morrer fosse tão complicado. Vivi pensando em tudo e, mesmo depois de morto, continuo nessa mesma toada. Será que nem já defunto consigo ficar em repouso e seguir o fluxo desta vida desencarnada? Creio que não.
Parece que já vão fechar a tampa. Estão todos reunidos ao meu redor, agora em oração. Quantas lágrimas que, nesta hora, acabam por respingar nas alças de meu humilde, mas lustroso, caixão.
Gostaria de poder dizer adeus, afirmar que está tudo bem, que estou do jeito que pedi a Deus. Infelizmente, falta-me a voz. Sigo pálido.
Pelo jeito, terminou. Estão colocando a tampa e, se eu pudesse fazer um último pedido, diria aos meus benevolentes algozes:
— Acendam a luz e não se esqueçam do sistema de ventilação.
Melhor esquecer esses pormenores. Mal sei o que me aguarda a partir de agora, sem mencionar o fato de que isto aqui balança um bocado, reforçando o enjoo já instalado. Seria o balanço resultado do excesso de peso ou de um piso malcuidado?
Deveria estar mais leve. Afinal, retiraram tudo de dentro de meu corpo durante a necropsia. Enfim, o pouco que restou de mim agora balança sob o gingado de outras mãos, tal qual nos bloquinhos de carnaval.
Ouço ao longe os passos que acompanham meu cortejo. Pelo ruído, parece-me tratar-se de uma multidão. Realmente, eu devia ter sido uma pessoa bem-querida. Ou será que se trata dos passos de alguma outra procissão?
Pelo fim do balanço, creio ter chegado ao meu espaço de sepultamento. Estou descendo rumo ao infinito. Sinto isso. Meu abrigo é meu jazigo, a morada eterna de um ataúde recheado de mim mesmo.
Cheguei ao fundo. Ouço algumas batidas sobre o tampo. Será que é alguém querendo entrar? Regozijo-me por não ter perdido, mesmo depois de morto, meu sempre presente senso de humor.
Risos eternos, aguardem-me!
Os coveiros já estão completando o trabalho com pazadas cheias de terra. O som vai ficando cada vez mais distante. Adeus, família. Adeus, queridos amigos. Adeus, amadas e enamoradas. Quem sabe a gente se encontre um dia por aí ou por aqui. Quem sabe.
Já não ouço nada. Tudo é escuridão. Um silêncio perturbador. Ainda não vi o paraíso, tampouco o inferno em chamas, nem sequer o tal clarão da passagem. Apenas esta aterrorizante e indescritível escuridão. Quem me dera ser fantasma e flutuar...
O tempo aqui embaixo parece não passar. Já nem sei que dia é hoje, se é noite ou se já clareou. O silêncio foi interrompido há pouco. Escutei algo como um leve e distante rastejar. Em seguida, senti-o na sola do pé.
Meu primeiro verme. Um novo amigo na breve eternidade.
Enfim, companhia!





Foi ao seu velório amigo? Vamos celebrar a felicidade nos ótimos momentos que tivemos, amores foram prazerosos, cervejas bebidas e musicas foram ouvidas. Se partisse eu agora: a minha trilha foi bem andada. Um abração.